Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Preminger, para o Régis

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Preminger, para o Régis

Luiz Carlos Merten

27 Agosto 2010 | 13h51

Régis Trigo desencavou um texto antigo, que escrevi em 1968 ou 69, sobre ‘Hurry Sundown’, o filme de Preminger sobre racismo no Sul dos EUA que passou no Brasil como ‘O Incerto Amanhã’. A produção era de 1967 e os filmes demoravam mais para chegar ao circuito. Eu amava o grande Otto, e não apenas o dos filmes noir como ‘Laura’ e ‘Alma em Pânico’. Na verdade, o ‘meu’ Preminger é o autor político que descobriu o formato widescreen – naquele tempo se dizia Panavision – e adequou suas histórias àquela extensão de tela. ‘Exodus’, ‘Tempestade sobre Washington’, ‘O Cardeal’ e ‘A Primeira Vitória’ formam um bloco de notável coerência, abordando o choque entre indivíduos e instituições, fossem elas a revolução, a política (o funcionamento do Congresso dos EUA), a Igreja ou o Exército. Além desses quatro grandes filmes, tenho uma queda pelo único Preminger que nunca consegui rever, porque ‘Bunny Lake Is Missing’, Bunny Lake Desapareceu, sumiu como o próprio garotinho da história e o filme é fabuloso, uma obra-prima que vive passando no meu imaginário, com aquela cena genial do balanço, no desfecho.  Logo depois de ‘Bunny Lake’, Preminger fez ‘O Incerto Amanhã’ e o filme foi recebido a pedradas. Régis pergunta se mantenho a afirmação que fiz na época, dizendo que havia assistido ao melhor filme do ano. Era provocação, pura. Na ‘Folha da Tarde’ e no ‘Correio do Povo’, em Porto Alegre, P.F. Gastal via Preminger com desconfiança e eu aumentava os elogios para ir contra o Gastal, decano da crítica cinematográfica no Rio Grande do Sul. É mais ou menos como diz Jeferson De na capa de hoje do ‘Caderno 2’, na entrevista que fiz durante o Festival de Gramado, reunindo as equipes de ‘Bróder’ e ‘Cinco Vezes Favela’ (que estreia hoje). Ambos esses filmes, e muitos outros, se constroem à sombra de ‘Cidade de Deus’. Fernando Meirelles iniciou a década com aquele clássico e eles agora a encerram com seus filmes. A garotada da periferia – da favela, do morro, das comunidades -, incomodada com a visão da classe média e da burguesia sobre eles, bebe na fonte de Freud e faz os próprios filmers, matando, metaforicamente, o pai para crescer. Complexo de Édipo na veia (e no cinema brasileiro). O super-elogio a Preminger tinha um pouco esse caráter, mas eu gostava sinceramente de ‘O Incerto Amanhã’ e da personagem de Diahnn Carroll. O filme provocou polêmica pela cena em que Jane Fonda toca saxofone simulando sexo oral, uma ousadia – ou vulgaridade? – nos idos de 1960.  Lembro-me de uma crítica norte-americana da qual ninguém mais fala, Judith Christ. Um livro com textos dela foi publicado no Brasil. Judith caía matando em ‘Incerto Amanhã’ (e no Preminger). Ela não perdoava especialmente a saxofonada de Jane Fonda. Naquele tempo, havia uma espécie de Oscar da crítica nos EUA e Judith foi indicada, e venceu o prêmio, justamente pela demolição da obra sobre a qual falo. O próprio Preminger foi de uma elegância exemplar. Enviou-lhe flores, cumprimentando-a pelo momento ‘de sucesso profissional’. Talvez fosse uma forma de dizer que estava c… para o que ela escrevia, mas era chique. O que gostava em ‘O Incerto Amanhã’ é que o filme era sobre as conflitosas relações entre brancos e negros e havia uma guerra por direitos civis que dilacerava a ‘América’. Sempre gostei muito da integridade daquela matriarca negra, e pobre, Beah Richards, mas o filme, no limite, não era sobre racismo, mas sobre conflitos de classes, sobre um mundo no qual poder e dinheiro andavam juntos (e se avalizavam). Naquela sociedade hierarquizada, o branco senhorial (Michael Caine) fazia suas leis e o primo, pobre como os negros da história, vindo da guerra e de cujas terras ele queria se apossar a qualquer custo, não valia nada. O ator que fazia o papel era John Philip Law, que havia sido o anjo de ‘Barbarella’, de Roger Vadim, com Jane Fonda. Mera coincidência? Não creio, mas teria de rever ‘O Incerto Amanhã’. O Régis nem imagina, mas seu comentário me fez viajar. A propósito, acho que já contei que, nos idos de 1970, num episódio de demissão coletiva, saí da Caldas Júnior e da ‘Folha da Manhã’. Em ‘Zero Hora’, fui fazer esportes, voltando ao cinema só em 1984, ou 85, no suplemento ‘Sul’, que a Gazeta Mercantil encartava para circulação no Rio Grande. Para ser honesto, tenho de agradecer ao Pilla Vares, que me permitiu publicar algumas críticas quando editava o suplemenyto de ‘Cultura’ de ZH. Obrigado, Pilla. Para não perder o hábito, eu escrevia furiosamente, nos intervalos de trabalho, sobre os filmes que via. Esses textos nunca foram publicados. Caixas e caixas que se haviam perdido. Minha ex-mulher, Dóris, resgatou uma delas e eu já providenciei para que os textos, redigidos em velhas laudas, já amarelecidas, com o timbre ZH, fossem digitados. Já que sobreviveram, pretendo – e espero que vocês achem interessante – publicá-los aqui no blog. Nem olhei o material. Espero que traga boas surpresas, para vocês e para mim. Como havia repassado a responsabilidade de selecionar e editar as críticas de ‘A Paixão do Cinema’ aos curadores da coleção da Prefeitura de Porto – ‘Escritos de Cinema’ -, não fazia a míunima ideia do que o livro me reservava. Quando o recebi, dei uma folheada e alguns textos me surpreenderam. Eu havia realmente escrito aquilo? Espero que as críticas reencontradas – o tempo reencontrado – traga mais dessas surpresas. Boas? Tomara.