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Preconceito, não!

Luiz Carlos Merten

18 Junho 2008 | 15h25

Muito interessantes as listas que o Régis pescou na rede, sobre os melhores filmes de gêneros, segundo o American Film Institute. Norte- americanos adoram listas. Dei uma geral e achei algumas coisas absurdas, outras hilárias e, finalmente, poucas com as quais concordo. Volto ao assunto. Mário Kawai pergunta como se chamou ‘Pacific South’ no Brasil? Foi ‘Ao Sul do Pacífico’ e o filme de Joshua Logan, lançado nos cinemas brasileiros no começo dos anos 60, passou em Todd-AO, um sistema de tela larga e som estereofônico que não vingou. Vi várias vezes, não porque tenha gostado particularmente, mas era um filme da Fox e passava num cinema – o Moinhos de Vento, depois Coral, em Porto Alegre – no qual trabalhava um cunhado meu. Vi muitas vezes outros filmes na mesma época -‘Os Seqüestrados de Altona’, embora seja um De Sica horroroso, e também ‘O Mais Longo do Dias’ e a ‘Cleópatra’ de Joseph L. Mankiewicz e Liz Taylor, mas esta é outra história (ou são outras histórias). Já falei para vocês, tenho certeza, que ‘Ao Sul do Pacífico’ é um daqueles musicais que a crítica detesta – as opiniões variam de xaporoso a ‘aflitivo’, para o Jean Tulard -, mas eu não resisto a dois números de Rodgers e Hammerstein, ‘Those Enchanted Evenings’ e ‘Bali Hai’, cantado pela Juanita Hall (aquela mulher canta até hoje a ilha encantada no meu inconsciente). Também não posso jurar que seja verdade, mas uma vez, falando sobre o filme, ouvi (de quem?) que ‘Ao Sul do Pacífico’ era um dos cult movies do Jacques Rivette. Será? O que sei é que ‘Ao Sul do Pacífico’ saiu em DVD nos EUA, numa caixa com outros musicais de Rodgers e Hammerstein (‘Carrossel’ e por aí afora). No Brasil, sinceramente não lembro se foi lançado pelo selo Fox Classics (ou qualquer outro). Sobre o comentário do Alexandre… Havia citado a cena de Cyd Charisse e Fred Astaire em ‘A Roda da Fortuna’ e o Alexandre caiu matando. Não naquela cena, que, segundo ele, é perfeita como representação do cinema como diversão e movimento que ele adora. É curiosa esta coisa do movimento. Em inglês, movies – e a matriz é a mesma de movimento – é a palavra que designa os filmes (da mesma forma como ‘shoot’, que pode ser tiro, ou atirar, também quer dizer ‘filmar’). Na frase seguinte, o Alexandre esculhamba com os discursos ‘demagógicos’ – segundo ele – filmados quadro a quadro em produções da França e do Irã, que ele, pelo visto, deplora. Aí já não concordo. Até aceito que ‘A Roda da Fortuna’ seja o ideal de movimento de um cinema refinado e elegante para o Alexandre (e eu também gosto) , mas não concordo que o cinema deva ser só movimento, ou então que ‘movimento’ seja só isso. Os filmes franceses, iranianos ou sei lá de que outra nacionalidade que irritam o Alexandre, a mim encantam, muitas vezes. Existe um dinamismo do diálogo, do cinema falado, que Mankiewicz transformou em obras-primas do cinema (‘A Malvada’/All about Eve) e para mim tanto faz que o filme seja movimentado ou parado. Não tenho fórmula. O filme tem de me ‘apanhar’ para algum tipo de experiência emocional, ou humana, ou política, ou mesmo puramente estética (por que não?). Vibro com a mesma intensidade com ‘Moulin Rouge’ e ‘Honor de Cavalleria’ e acharia insuportável se tivesse de optar entre um e outro e a via do cinema passasse a ser só a do escolhido. Preconceito contra o cinema iraniano, ou o francês, não! Ainda mais na véspera – amanhã – de um evento como o 1º Panorama do Cinema Francês no Brasil, que vai trazer filmes inéditos e convidados especiais – atores e diretores – para debates que prometem, com o público de São Paulo.