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Luiz Carlos Merten

20 Dezembro 2006 | 10h08

Na semana passada, conversando com Renato Aragão, antes de ele viajar para os EUA – está em Orlando –, Didi confessou que não importa o número de filmes que já fez. O friozinho na barriga é o mesmo em relação a O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, que estréia sextá-feira. Como reagirá o público? A preocupação não é tanto pelo recorde, pela arrecadação, mas pelo que ela representa. O artista popular vive da aprovação de seu público, desse retorno imediato que a comunicação lhe proporciona. Didi está preocupado,. Conseguirá manter o milhão e pouco de espectadores que teve com o filme anterior (e que foi a segunda bilheteria brasileira do ano, bem abaixo de Se Eu Fosse Você, a comédia de Daniel Filho que bateu, quase, nos 4 milhões)? Ele não está se desculpando antecipadamente, mas arrisca algumas interpretações. Diz que faz filme para o povão e o povão já se endividou na Copa, comprado TV e o escambau (e sem ter o retorno da vitória do Brasil na Alemanha). Marisa Leão, produtora de Meu Nome não é Johnny, tem outra interpretação, que não é excludente em relação à do Renato. Encontrei a Marisa ontem no Rio, na visita ao set do filme que Mauro Lima está adaptando do livro de Guilherme Fiúza. Marisa sabe da queda de público, mas observa que o fato não atinge só o cinema brasileiro. Cassino Royale estreou sexta passada abaixo da expectativa de bilheteria da Sony. O fato é que o cinema, no Brasil, está caro. O preço médio do ingresso anda em torno de R$ 15 (para mais) nas salas de shopping. Nos EUA, na Europa, é mais caro, mas eles ganham em dólar, em euro. Na Europa, em Paris, a maioria das salas é de rua. Aqui, o shopping espanta metade da população, que não é bem-vinda neste templo de consumo. Se um punhado de jovens da periferia entrar no shopping, duvido que o segurança não vá atrás, ficando de marcação até conseguir expulsá-los de lá. E, além do ingresso, tem a pipoca, o refrigerante, a praça da alimentação. Uma ida ao cinema termina saindo cara para um casal de namorados. Para uma família, então, pode ser proibitiva, dependendo do salário. Uma rede de salas populares poderia ser a solução. Mas existem outras idéias. Vi uma entrevista do Leon Cakoff, avaliando a Mostra no programa da Marília Gabriela, e ela colocou a questão do preço do ingresso. Disse o que acabo de observar – que ele é caro. Leon retrucou que a culpa é da meia-entrada. Bom, ela é um direito adquirido há 50 anos e uma raridade que ainda subsiste neste mundo globalizado, no qual a idéia é eliminar privilégios e entregar o poder regulador ao mercado, só que o mercado, em si, já é privilégio de uma camada, a que manda. A solução é acabar com a meia-entrada para estudante, para idoso? Qual seria o impacto? O quanto isso diminuiria no preço do ingresso? Taí outro assunto bom para discussão.