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Luiz Carlos Merten

22 Maio 2010 | 13h29

CANNES – Nikita Mikhalkov apresentou o último filme da competição – ‘Sol Enganador 2 – Exodus’ foi exibido pela manhã para a imprensa e, à noite, às 19 horas locais, em sessão oficial. Gosto médio do primeiro filme, que perdeu para o Quentin Tarantino de ‘Tempo de Violência’ (Pulp Fiction). A Palma tem escapado ao diretor russo, que também já havia forte concorrente em 1987, com ‘Olhos Negros’. Espero que o júrio de Tim Burton não faça a besteira de querer recompensar Mikhalkov. O filme chegou à Croisette envolto em polêmica. Mikhalkov volta aos temas da 2.a Guerra e do stalinismo – a Rússia pós-comunista, real, está no outro concorrente russo, ‘My Joy’, do ucraniano Sergei Loznitsa. Nikita Mikhalkov é próximo dos presidentes Etsine, Poutine e Medvedev. Desde que seu filme – o mais caro das últimas décadas, no país, já que custou 35 milhões de euros – estreou em mais de mil salas, em abril, Mikhalkov virou alvo de uma petição intitulada ‘Por que não o amamos’, que colocava em xeque seu status de cineasta oficial. Na suíte dos acontecimentos, uma caça às bruxas atingiu autores como Alexander Sokúrov, que tinha um cargo representativo. Entre outras coisas, Mikhalkov é acusado de abusar de seu cargo como membro do conselho adminisrtrativo da agência que subvenciona o cinema russo, concentrando 80% do orçamento do ano em sete empresas produtores, incluindo a dele e seis de sócios ou amigos.  O filme de Loznitsa, a proopósito, entre outros coisas, é sobre esse gangsterismo instalado em todas as esferas do po0der na antiga URSS. ‘Sol Enganador 2’ acompanha um general que caiu em desgraça junto a Stálin e sua filha na guerra. A garota se recusa a renegar o pai, interpretado pelo próprio diretor. Imagino que, se o filme tivesse sido feito em Hollywood, teria custado o dobro, pois possui cenas grandiosas, espetaculares. Numa delas, Mikhalkov filma o ataque da aviação alemã a um navio da Cruz Vermelha, o que lhe permite criar o seu ‘Titanic’. O grande problema de Mikhalkov – um dos, pelo menos – é que seu filme é muito gritado. Histérico talvez seja uma definição melhor. Me lembrou o Sergei Bondartchuk de ‘Guerra e Paz’, nos idos anos do comunismo. Naquela adaptação de Tolstoi – a de King Vidor era muito melhor -, cada vez que se ouvia a expressão ‘Mãe Rússia’, os personagens colocavam ênfase na voz e se ouviam sinos na trilha sonora. O comunismo afundou, mas cineasta russo oficial continua f… (a palavra com quatro letras). Mikhalkov pode ser crítico com o stalinismo, mas quando se trata de exaltar a Mãe Rússia, sai de baixo, até o Bondartchuk ia achar que ele exagera no tom. Thierry, Thierry, por que selecionaste esta bomba?