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Por que o cinema? Por causa de Jennifer Jones

Luiz Carlos Merten

02 Maio 2018 | 12h33

Por que o cinema? No editorial da Cahiers de março, Stéphane Delorme começa justamente (se) colocando a questão. Na era da internet, das redes sociais, das séries de TV, dos videogames, da realidade virtual, do magma audiovisual generalizado, diz ele, em nome da revista, que surgiu essa necessidade de reafirmar porque amamos, preferimos e escolhemos – nós, cinéfilos -, o cinema. Porque o pensamento sobre o cinema – a pensée cinéma – é a viagem, a búsasola a guiar as escolhas dentro desse universo cada vez mais híbrido do audiovisual. E depois, lá dentro, abrindo a série de ensaios sobre o tema, com um artigo chamado Sensibilité – Sensibilidade -, Delorme começa justamente evocando um dos fiolmes da minha vida. Clamor do Sexo/Splendor in the Grass. La fièvre dans le sang. Natalie Wood entra na sala de aula, percebe a agitação dos colegas, mas ainda não sabe que foi traída por Warren Beatty. A professora pede que se levante, que leia e comente o verso de Wordsworth – ‘Though nothing can bring back the hour/Of splendor in the grass, glory in the flower.’ Por que o cinema? Porque a emoção absoluta que a cena provoca não existe que em função da imagem, do som, da intensidade da atriz e das implicações estéticas (e éticas) que tudo isso, o amálgama, provoca. Délorme prossegue investigando o choque que um garoto que tenha curtido ‘a la folie’ A Imensidão Azul, de Luc Besson – ou qualquer outro blockbuster, Transformers, de Michael Bay, talvez -, pode experimentar diante de Os Vivos e os Mortos, o último John Huston, baseado em James Joyce. A compreensão de que o filme não vive só de momentos retumbantes, mas desses instantes de vazio, em que não ocorre nada e o mundo parece parar. Por qwueessa tristeza, essa agonia? Por que o cinema? O ensaio seguionte é Réalisdme/Realismo, por Jean-Phillippe Tessé, e ainda vem Montagem, por Cyrill Béghin, e Égalité/Experiências de Igualdade, de Camille Bui, centrado na análise que ela faz das recentes denúncias de violência sexista, e agora os filmes são Ela, de Paul Verhoeven, Pulp Fiction/Tempo de Violência – Uma Thurman vs. Quentin Tarantino -, etc, até chergar em Showgirls, o execrado filme de Verhoeven que hoje viroiu objeto de culto. As análises prosseguem – Mise-en-ScÈne, raconter par le plan, a função narrativa do plano, por Jean-Sébastien Chauvin (de novo), Ensemble/Rester Ensemble, por Nicholas Elliott, e Salle, poor Laura Tuillier, sobre a função sociasl da sala de cinema nesse momento em que as pessoas são estimuladas a individualizar a experiência de ver filme no celular, no tablet. Por que o cinema? Por que a sala? Pela fruição? E, finalmente, Pensée/Pensamento, a Cognição por Laurent Dubreuil. Coleciono Cahiers há mais de 30 anos, quase 40. Não sei mais onde colocar tantas revistas na minha casa. Raramente as leio – viraram compulsão de colecionador. Folheio, faço uma leitura vertical, alguma coisa sempre termina por me interessar. Quem mais, além de Cahiers e eu, vai achar Super 8, de JJ Abrams, uma obra-prima? Essa é uma edição, a de número 742, para ler, refletir, concordando ou não. E ainda tem mais. Joachim Lepastier faz a crítica, com direito a entrevista – no total, três páginas! – de As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra. Não sou o maior fã da dupla, mas gosto desse filme e até hoje tento entender como o júri do Festival do Rio, no ano passado, preferiu premiar Praça Paris, de Lúcia Murat, melhor direção e atriz, Grace Passô. Nunca! Como ignorar Isabél Zuaa? Lepastier faz uma análise interessante. As boas novas do Brasil nascem, segundo ele, de um axioma. Numa linha direta, Lepastier cita O Som ao Redor, Aquarius e Casa Grande, para chegar a Boas Maneiras como variação do(s) tema(s) dos outros três. O grande tema que ele acha que define o Brasil é le péril en la demeure, o perigo na casa. Intrigante, gostei, mas eu, pelo menos, já estou em outra viagem e o cinema brasileiro que mais me interessa atualmente é representado por Boi Neon, Corpo Elétrico, Pela Janela e Arábia, e pelos experimentos de Cristiano Burlan, Antes do Fim e Elegia de Um Crime. E ainda não esgotei a Cahiers de março. O lançamento em DVD/Blu-ray, pela Carlotta, de Duelo ao Sol, faz com que a revista se volte para o rei Vidor. King Vidor! Jennifer Jones como representação do feminino. Pearl Chávez em Duelo ao Sol, Ruby em A Fúria do Desejo. Cahiers cita um texto fundador do feminismo no cinema – Au-delà du plaisir visuel, de Laura Mulvey, de 1975. Tem tudo a ver com a intensidade cênica e o erotismo que o rei Vidor imprime a suas mulheres, a Jennifer que, nos dois filmes, é capaz de enfrentar, de arma na mão, o objeto do seu desejo. Por que o cinema? Poprque exdiste Jennifer Jones nos filmes de King Vidor.