Luiz Carlos Merten

02 Março 2016 | 12h30

E lá vou eu tentar o impossível. Conciliar o desejo de mudar e o cinema de resistência de A Vizinhança do Tigre com… o novo Michael Bay, 13 Horas – Os Soldados de Benghazi. Michael Bay é a Geni de Hollywood. Joga pedra na Geni! Ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir. Maldita Geni! Michael Bay, também. Ele pode ser responsável por sucessos impressionantes de público – toda a série Transformers -, mas nunca encontrei um crítico que o olhasse sem desprezo, ou que tentasse ver um pensamento por trás do que parece só Sessão da Tarde, e bem barulhenta. Opa! Talvez juntar a quebrada com Bay não seja tão difícil assim. No post que acabo de ler no Olho Derramado, O Novo Terrorismo, Kiko Dinucci cita Adirley Queirós, que define Branco Sai, Preto Fica como a sua Sessão da Tarde, com ecos de Mad Max, Blade Runner e Bruce Lee, e Dinucci acrescenta que é a Sessão da Tarde possível de fazer em Ceilândia. Todo filme de Michael Bay cria sempre um campo de batalha. Na série Transformers, aliens robóticos invadem a Terra e um deles, o rebelde da galáxia, une-se ao garoto para salvar a humanidade. Minha primeira entrevista com Michael Bay foi em Cannes. Bad Boys ainda não havia estreado, ele era desconhecido – embora já tivesse ganhado não sei quantos Clios, a Palma de Ouro da publicidade. Ia entrevistar não sei quem no escritório da Columbia, nem era Sony, no Carlton, e a publicista me pediu como um favor pessoal que entrevistasse o Bay, que estava jogado às traças. Encontrei-o, depois, no Rio, quando ele veio lançar um dos Transformers, acho que O Lado Oculto da Lua. Puxei o assunto ‘Stanley Kubrick’. Não se pode falar do poder das máquinas no cinema sem invocar Hal-9000 em 2001, Uma Odisseia no Espaço. Mas essa conexão era muito óbvia. Queria falar com Michael Bay sobre montagem. Kubrick dizia que cinema é montagem. E, antes dele, Eisenstein já teorizava que o cinema é a arte (mas ele não dizia ‘arte’) de ordenar imagens no inconsciente do espectador. Pensem – duas máquinas com o mesmo design facial. Nenhuma expressão. Uma luz azul no olho de uma, outra vermelha, no olho da outra. Bem e mal. São conceitos tão abstratos que só a montagem consegue criar uma possível integração emocional do espectador. Bay, a Geni, segura uma boa conversa sobre Kubrick. Tratado como artesão, e ignorante – como se fosse fácil o que faz -, ele é obviamente cinéfilo. Em A Era da Extinção, o transformer do bem se refugia em Monument Valley, um solo sagrado do cinema, onde John Ford fez seus westerns que mostram como se constrói uma civilização – e o tema de Bay, no filme, era a (re)construção da Terra ameaçada. A guerra de Benghazi é esse enclave norte-americano na Líbia pós-Kadafi. O filme parece patriótico – bandeiras, soldados durões. O que fragiliza o homem é a mulher (Howard Hawks), com quem ele constrói a família. Acuados no anexo do posto diplomático, os agentes e o pessoal diplomático pedem socorro, mas se chocam com a burocracia. Nem todos vão se safar. Cinema é guerra, Sam Fuller disse a Jean-Luc Godard em Pierrot le Fou/O Demônio das Onze Horas. E o próprio Fuller, que fez tantos filmes de guerra, não filmava heróis, mas sobreviventes. Há uma citação de Joseph Campbell – todos os céus, os infernos, os deuses e os demônios, carrego comigo. A penúltima imagem é de um soldado chorando – a de O Homem Que Matou o Facínora, o western crepuscular de Ford, também. Andy Devine enterra John Wayne, e chora. John Krazinski enterra o amigo e também chora. A última imagem, anti-heroica total, é de uma bandeira rota e enlameada. Você pode objetar dizendo que Michael Bay vilaniza os nativos, os líbios. Eles nem chegam a ser personagens. São tipificados – Eisenstein, em O Encouraçado Potemkin. Mas existem, num diretor criticado pelo ritmo acelerado, dois diálogos importantes. Um líbio defende o direito de escolher o que acha melhor para seu país. E o ‘herói’, disposto a morrer mas destacando a inutilidade (John Huston) do próprio esforço, pergunta-se o que faz nessa terra estranha, que não significa nada para ele. Se o cinema de Bay é um campo de batalha, como Akira Kurosawa no desfecho de Kagemusha, ele filma a desolação da paisagem após a carnificina. E é o momento em que ‘humaniza’ o inimigo. O choro das mulheres de preto, agarradas a seus mortos. De um lado e outro, destruição. Apesar do excesso, da barulheira, em geral divirto-me com Michael Bay. No caso de Benghazi, seria obsceno falar em diversão. Por uma vez, Michael Bay filma a guerra como a tragédia que é. Last but not least – esse episódio na Líbia é considerado uma pisada de bola de Hilary Clinton. Em nenhum momento há referência à secretária de Estado ou ao presidente. A crítica é às instituições, não pessoas.