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Cultura » Pontes entre extremos

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Luiz Carlos Merten

30 Abril 2007 | 16h00

Não tenho dúvida de que o júri do Recife fez sua opção por um tipo de cinema simples, minimal, de baixo orçamento. Houve aí coerência. Cão sem Dono e Os Doze Trabalhos, apesar de todas as suas diferenças, vão por este lado. Não por Acaso seria, ou é, o cinemão brasileiro, feito com participação das Majors, o que não impede o trabalho de Philippe Barcinski de ser também autoral. Acho que deve ter causado incômodo no júri – ninguém me disse, estou avaliando por conta própria – o grau de glamourização que a simples presença de Rodrigo Santoro imprimiu ao Cine-PE. Vou ao Recife há vários anos e nunca vi nada parecido com aquela sessão – Rodrigo entre seguranças, tendo de entrar por uma passagem secreta, assediado pelos fotógrafos e pelo público, que o queria beijar, tocar… É um tema interessante para discussão, mas agora estou interessado em outra coisa, ou outras coisas. Assim como se pode relacionar os filmes de Ricardo Elias e de Beto Brant e Renato Ciasca, o do Barcinski também permite certas pontes que quero estabelecer. Tudo está conectado. Os Doze Trabalhos e Não por Acaso não apenas se passam em São Paulo. Em ambos, o caos da cidade e a vertigem de seu trânsito fazem parte da (cine)dramaturgia. Ricardo Elias revela uma SP poucas vezes vista na tela pelos olhos de seu motoboy. Philippe Barcinski revela outra SP, esplendorosamente bela por sua geometria – a fotografia de Pedro Farkas é uma coisa de louco –, através de seu obsessivo controlador de tráfego. Essa relação até que é meio óbvia, mas também se pode relacionar Não por Acaso e Cão sem Dono. Ambos são filmes de personagens, de duplas, e propõem maneiras diversas – antagônicas até – de tratar o intimismo, mas em ambos o viés é intimista. As histórias do casal e dos dois caras, que por sua vez formam duplas e triângulos, me parecem muito (as duas!) intimistas. Sinto que ainda vamos falar muito sobre esses dois filmes. O do Beto e do Renato estréia em Porto Alegre, onde foi filmado – e eu sou de lá, a geografia da cidade não está menos evidente na tela –, no começo de junho, antes de subir para Rio e São Paulo. O do Barcinski estréia dia 7, também de junho, e até onde sei será uma estréia nacional, espero que não com muitas cópias. Acho que o filme pode ser grande, mas o lançamento, por suas características, tem de ser pequeno para lhe dar chance de funcionar.

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