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Pontecorvo, o grande ausente

Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2006 | 11h42

Morreu Gillo Pontecorvo, aos 86 anos, de causa não anunciada, ontem, em Roma. Pontecorvo foi (e ainda é) um nome essencial do cinema político italiano dos anos 60 e 70, mas não há nenhum filme dele na retrospectiva da tendência anunciada pela 30ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo. Estão lá listados vários filmes de Francesco Rosi, de Giuliano Montaldo, Elio Petri, Damiano Damiani, Marco Bellocchio, dos irmãos Taviani, do Ettore Scola e até do Dino Risi, que não se encaixa bem no conceito do cinema político (exceto pelo fato de que todo filme é sempre um ato político). Todos – menos Gillo Pontecorvo, o que de alguma forma, sorry Leon Cakoff, depõe contra a retrospectiva dentro da Mostra (e que, de resto, é ótima). Pontecorvo foi importante, mas não foi uma unanimidade. E, nos últimos anos, foi perseguido por dois flagelos. Um de seus dois grandes clássicos, A Batalha de Argel (o outro é Queimada), passou a ser usado pelo Pentágono como manual para combater o terrorismo, o que está em contradição com o espírito do filme. E, outro flagelo, pior. Na França, publicações como Cahiers du Cinéma e Positif exumaram uma velha polêmica, que data de Kapò, de 1960. O filme com Susan Strasberg conta a história dessa garota judia que colabora com os nazistas, no campo de concentração. Numa cena particularmente intensa, Emmanuelle Riva, a atriz de Hiroshima Meu Amor, do Resnais, não agüenta tanto sofrimento e mata-se na cerca de arame eletrificado. Na época, os críticos de Cahiers, que estavam virando diretores (Rivette, Rohmer), chamaram de fascista o movimento de câmera de Pontecorvo pegando o corpo da Emmanuelle preso nos fios. Houve réplica e tréplica e surgiu aquele conceito, muito difundido, de que o travelling é uma questão de moral, que virou bandeira da nouvelle-vague. Cahiers voltou ao assunto este ano, o que motivou a reação de Positif (em favor de Pontecorvo). A súmula das críticas a Pontecorvo pode ser encontrada no verbete que lhe dedica Jean Tulard, no Dicionário de Cineastas. Fui até consultar, para ser preciso. Ele diz que Pontecorvo quer ser político, mas o é sem sutileza. Dá mostras de enfado em Kapô, seja lá o que isso significa; é falsamente corajoso em A Batalha de Argel (segundo Tulard). Até quando elogia Pontecorvo, o crítico e historiador cai matando – o diretor é mais acurado ao tratar do colonialismo em Queimada, mas o cabotinismno de Marlon Brando (é ainda Tulard quem diz) leva o filme aos confins do ridículo. Vejam que a inclusão de Pontecorvo na retrospectiva do cinema político italiano, mais que uma homenagem da Mostra, seria agora uma necessidade, para que se possa reavaliar a obra do homem que acaba de morrer.