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Cultura » Pollack e o prazer do convívio

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Luiz Carlos Merten

29 Maio 2008 | 11h43

Ainda não li os comentários de vocês sobre a morte de Sydney Pollack, mas muitos – ou alguns, pelo menos – poderão ter assinalado o que vou dizer agora. Estava salvando o post quando me dei conta de que, na pressa de redigir, havia deixado de fora coisas importantes. Com ‘A Aoite dos Desesperados’ e ‘Mais Forte Que a Vingança’, o sublime ‘Jeremiah Johnson’, sua obra-prima, acho que o terceiro grande filme de Pollack foi ‘Tootsie’, com Dustin Hoffman. Lembro-me de que quando falei com ele em Veneza Pollack repetiu o que já havia lido antes – que ele nunca se achou um diretor de comédias e aquela só deu certo porque ele a dirigiu como um drama, o que lhe valeu não poucos problemas com Dustin. O ator queixava-se das horas de maquiagem, do excesso de seriedade do diretor. Foi um inferno para ambos, mas deu certo. Estou me lembrando agora que o primeiro longa de Pollack, que não era bom, ‘The Slender Thread’, chamou-se ‘Um Vida em Suspense’ no Brasil. Título profético. Falei nas vidas suspensas – não propriamente em suspense – no cinema de Pollack e ‘Tootsie’ fornece um dos melhores exemplos, quando o viúvo Charles Durning, na cena do balanço, se declara para Dustin (vestido de mulher). Naquele vaivém do balanço, o mundo meio que pára e ele fala da sua tristeza, do absoluto da vida, coisas profundas que vão contextualizando sua vontade de recomeçar com Tootsie, e o espectador, que sabe que aquilo é impossível, reage pelo riso a uma situação que é, na essência, muito densa e até angustiante. Que belo filme! Mas queria contar a entrevista de Danièle Thompson que li no ‘Figaro’. Ela havia sido companheira do Pollack no júri de Cannes. Quando precisou de um diretor norte-americano em seu filme ‘Um Lugar na Platéia’, Danièle imediatamente pensou nele. Pollack brincou que era muito caro para ela, mas baixou seu preço somente pelo prazer de poder trabalhar num filme francês. Danièle conta que ele adorava o set, onde a camaradagem não excluía, mas falava mais forte que o profissionalismo. E ela acrescenta que Pollack reagia feito criança à proximidade das refeições, que reuníam toda a equipe e eram regadas a vinho. Em Hollywood ele dizia que aquilo seria impossível, não só o vinho, mas a comunhão. Pollack dirigiu muitos astros e estrelas para saber que não se misturam. Isso faz sentiodo com uma coisa que disse o George Clooney. Mais até do que a morte do ator e diretor, ele lamentava a do homem fino, bom de conversa, que sabia transformar o convívio em algo prazeroso. Como epitáfio, não poderia ser mais emocionante.