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Luiz Carlos Merten

05 Março 2008 | 11h12

Marília Pêra é um monumento na arte da representação, mas eu a prefiro no teatro e na TV. No cinema, Marília necessita de diretores que lhe imponham limites e, em geral, eles se intimidam diante do mito. Sua Madame Cleci, na adaptação de ‘Vestido de Noiva’, feita pelo filho de Nelson Rodrigues, me pareceu constrangedora e é preciso gostar muito mais do que eu gosto de Paulo César Saraceni para aceitar incondicionalmente a interpretação de Marília em ‘O Viajante’. O que é aquilo? O que é aquele filme? Saraceni havia acertado a mão em outra adaptação de Lúcio Cardoso, ‘A Casa Assassinada’, e já haviam vestígios do grande escritor em ‘Porto das Caixas’, mas ‘O Viajante’ não dá. Não vou dizer que fui ver ‘Polaróides Urbanas’ com o pé atrás, mas também não tinha nenhuma expectativa especial (e ainda por cima, Marília Pêra em dose dupla!). De cara o filme de Miguel Falabella tem um mérito – Marília está ótima, fazendo gêmeas. Ela tem momentos de grande cabotina – também tinha em ‘Jogo de Cena’, de Eduardo Coutinho -, mas a própria comédia tem um tom que é adequado para o brilho incomparável da estrela. É impossível, simplesmente impossível, deixar de rir com Marília em ‘Polaróides Urbanas’. E o filme? É… simpático? “Polaróides Urbanas’ baseia-se na peça ‘Como Encher um Biquíni Selvagem’, que Falabella escreveu para Cláudia Jimenez. Um monólogo em que a Cláudia cria todas as personagens femininas que agora ganham muitas atrizes no filme. Vi a peça e nunca me esqueci da Cláudia como Crioula, que a Neusa Borges faz no cinema, de forma menos engraçada (mais trágica, na verdade). Há um lado ‘Almodóvar’ muito forte no filme do Falabella – mulheres à beira de um ataque de nervos, uma maneira de usar a música, de filmar (Arlete Salles fotografada no meio de suas imagens repetidas, como a estrela de ‘Tudo Sobre Minha Mãe’). Um amigo que viu ‘Polaróides’ comigo assinalou isso, mas acrescentou que o Almodóvar filma muito melhor. É verdade, mas eu disse para ele que estava comparando o Almodóvar de ‘Mujeres al Borde’ ou o mais recente de ‘Tudo Sobre Minha Mãe’, ‘Fale com Ela’ e ‘Volver’. Aí é covardia. Agora, comparando com o Almodóvar do início de carreira – ‘Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón’, ‘Labirinto de `Paixões’ e ‘Que Hé Hecho para Merecer Esto?’ – já não fica tão ruim. E o Falabella não fica só na influência de Pedrito. Ele bebe em outra fonte, a grande comédia italiana dos anos 50 e 60, e estou pensando no maior de todos aqueles diretores, Dino Risi. Não falei com o Falabella, mas posso arriscar que ele viu ‘Férias à Italiana’ (L’Ombrellone), que é a minha comédia favorita do Risi. Ele fez grandes filmes com Vittorio Gassman. Aquele era com Enrico Maria Salerno. O sujeito sai em férias, vai para a praia e ali, na areia, observa que os grãos que lhe escapam pelos dedos são a sua vida se esvaindo (ia escrever ‘sua própria vida’, mas o manual de redação do ‘Estado’ ensina que é redundância). É angústia pura (e o filme é uma tragicomédia). ‘Polaróides Urbanas’ tem vários momentos assim – com Neusa Borges, com a filha suicida de Natalia do Valle, com Marília Pêra como esposa suburbana (os diálogos dela com o michê, por exemplo). Não creio que ‘Polaróides’ seja um grande filme, ou mesmo um filme acabado, mas gostei de ver ‘Polaróides’, justamente pelo que tem de precário (das emoções humanas, da própria realização). E o filme tem Marília Pêra em estado de graça. Há tempos não ria tanto com uma comédia brasileira.

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