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Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2010 | 13h48

BERLIM – Nestes mais de dez anos a que venho no Festival de Berlim nunca vi tanta neve nesta cidade. E o frio anda de fazer passarinho cair do galho, como se diz no Sul. O que tem me aquecido é o cinema. Vamos logo ao Roman Polanski, pelo qual imagino que voc~es tenham grande curiosidade. Assisti agora de manhã a ‘The Ghost Writer’. Polanski, claro, não veio. Vieram os produtores Robert Benmoussa e Alain Sarde, o roteirista Robert Harris, os atores Ewan McGregor, Pierce Brosnan e Olivia Williams. Benmoussa nãsso quis falar sobre a situação atual de Polanski. Diz que não era a hora nem local. Harris explicou que trabalhava com o diretor no roteiro de ‘Pompeia’. A produção foi arquivada, mas eles queriam continuar trabalhando juntos. Harris ofereceu o thriller que estava terminando de escrever, ‘The Ghost Writer’. Disse mais ou menos ou que era para o diuretor. Polanski declinou. Achou ‘boring’. Mesmo assim, ao concluir o livro, Harris enviou um exemplar ao amigo. Polanski fez saber em seguida que era o thriller que queria fazer, o seu retorno a ‘Chinatown’. Não é para tanto, mas gostei do filme. Ewan McGregor é contratado para escrever as memórias do premier britânico. O escritor anterior apareceu morto. No processo, o político é acusado de violação dos direitos humanos, tendo entregue suspeitos de terrotrismo à CIA para tortura. McGregor vai de descoberta em descoberta, enredando-se cada vez numa trama opressiva (e mortal). Parece piada, mas numa cena o premier, Lang (Brosnan), diz que precisa fazer uma viagem. Seu advogado diz que ele tenha o cuidado de não ir para um país que tenha tratado de extradição. A plateia veio abaixo, humor negro total, porque o caso remete à situação doi próprio Polanski. Ele continua bom na criação dessas atmosferas opressivas. Mais até do que ‘Chinatown’, o filme tem algo de ‘O Inquilino’, na medida em que McGregor, o ghost writer, é uma sombra que percorre a narrativa, sendo direcionado para o desfecho. Gostei bastante da utilização que Polanski faz do ‘clima’. Chove o tempo todo, venta, faz frio e o clima vira personagem, acentuando a opressão. O caso – a prisão – de Polanski é muito complicado para ser discutido aqui, mas o filme me surpreendeu. É melhor do que eu pensava e olhem que não tinha motivos para duvidar que Roman fosse fazer um bom filme.