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Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2009 | 14h08

Estou devendo há dias o post sobre Roman Polanski, mais exatamente, sobre ‘O Inquilino’. É um dos autores cuja obra conheço na íntegra. Assisti ao meu primeiro Polanski, um curta, na grande Mostra do Cinema Polonês realizada no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre, no começo dos anos 1960. Muitos de vocês – a maioria? – nem eram nascidos. Vi também os longas, a começar por ‘A Faca na Água’. Tive o privilégio de entrevistar Polanski três vezes – em Cannes, no ano de ‘O Pianista’, no Festival do Rio e no CineSesc, quando ele veio a São Paulo trazido por minha amiga Ursula Groszka. Acompanho atualmente preocupado o que ocorre com Roman, preso na Suíça, à espera de extradição. Não brinco com essa história de abuso infantil – Deus me livre! -, mas, nos contestadores anos 1960, a garotinha de 13 anos que ele estuprou na verdade era uma cavalona que parecia mais velha. E eu duvido que Polanski a tenha ‘estuprado’. Ele é o tipo do sujeito que canalizou sua capacidade destrutiva para a arte. Pensem nos filmes – ‘Armadilha do Destino’, ‘Repulsa ao Sexo’, ‘A Dança dos Vampiros’, ‘O Bebê de Rosemary’ etc. Peguemos os vampiros de Roman, aproveitando que ‘Lua Nova’ estreou, anteontem, em 602 salas do País. Os vampiros da saga ‘Crepúsculo’ formam uma família de classe média que optou pelo ‘bem’. Edward, o herói, não suga o pescocinho de Bella nem que ela lhe peça de joelhos. Ele não é um vampiro, é Romeu, o príncipe encantado. Quer se casar, provavelmente de véu e grinalda. Um dos vampiros de Polanski é gay e outro é descrente, escarnece do crucifixo. Isso foi há mais de 40 anos! Há uma regressão na saga ‘Crepúsculo’, mais um sinal dos tempos. Mas volto a Roman. O primeiro filme dele de que eu gostei mesmo foi ‘O Bebê’. Mia Farrow, maravilhosa. O conflito entre o instinto e a cultura repressora – Rosemary, de faca na mão, se aproxima do berço para matar o filho do Diabo. Mas é o filho dela! Amei – amo – ‘Chinatown’, que reinventa a tradição noir e propõe outra diabólica situação familiar. O incestuoso Noah Cross (John Huston), depois de comer a filha, Faye Dunaway, quer a neta. Tragédia pura. Como muitos outros grandes diretores, Polanski seguiu uma trajetória ziguezagueante. Muitos filmes bons, outros menos bons, um que outro ruim de verdade (‘O Último Portal’, com Johnny Depp). ‘O Inquilino’ é de 1976. Situa-se entre dois ‘grandes’ – ‘Chinatown’ e ‘Tess’, adaptado de Thomas Hardy. O próprio Polasnki interpreta o locatário deste apartamento em Paris. A moradora anterior cometeu suicídio, lançando-se pela janela. Aos poucos, Polanski vai sendo ‘possuído’ pelo espírito da moça e induzido a também se suicidar. Gosto muito da primeira parte de ‘O Inquilino’, aquela interferência dos vizinhos (como em ‘Rosemary’), o clima de paranoia que vai se acentuando. Polanski tem physique du rôle para fazer o inquilibno insignificante, tímido – embora ele já tivesse feito pequenos papeis, foi este filme que o liberou para representar e ele foi Gregor Samsa no papel, numa versão teatral, que também dirigiu, de ‘Metamorfose’, de Kafka. E os vizinhos do ‘Inquilino’ são ótimos, Shelley Winters, Jo Van Fleet, Melvyn Douglas, Lila Kedrova etc. Gosto um pouco menos da parte final, quando Polanski, o inquilino, completamente ‘possuído’, veste-se de mulher, pronto para o sacrifício. Estou escrevendo essas linhas baseado numa impressão antiga. Faz tempo que não (re)vejo ‘O Inquilino’. Lembro-me que, na época, o filme foi recebido a pedradas, como outros Polanskis (o seu ‘Macbeth’), mas com o tempo virou cult e agora confesso que estou curioso. O filme saiu em DVD, é isso? Por qual empresa? Andei ontem no centro durante mais de uma hora, enquanto fazia hora para cortar o cabelo. Passei por todas as lojas de DVD que conheço. Comprei alguns que não tinha – ‘Sargento York’ e ‘O Último Hurra’, respectivamente de Howard Hawks e John Ford -, mas não vi ‘O Inquilino’.