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Luiz Carlos Merten

16 Janeiro 2012 | 10h31

SANTIAGO – Os Clowns continuam no Chile até o fim do mês e ainda vão mostrar ‘Sua Excelência, Ricardo III’ em Valparaíso, mas nossa pequena trupe, Gabriel Villela, Dib Carneiro Neto e eu, viaja de volta para o Brasil no início da tarde. Vamos em voos separados, eles voando TAM e eu, LAN Chile. Foram dias muito intensos, muito bacanas. No sábado, fomos a Valparaíso e Viña, A primeira foi tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Amo andar por aquelas colinas, com aquelas casas de madeira colorida que me lembram, mas não pelo material de construção, Salvador. A casa de Pablo Neruda estava cheia e não quisemos ficar esperando. Quer dizer, eles não quiseram. Eu teria esperado para entrar, mais uma vez, naquele santuário de poesia, para ver a janela, debruçada sobre o porto, do escritório de Neruda. O dia não estava bonito. Desde 1973 – muitos de vocês nem eram nascidos -, vim muitas vezes ao Chile, e fui a Valparaíso, vendo nsempre a cidade ensolarada. Anteontem, ela estava encoberta e em Viña, onde almoçamos, de frente para o mar, a rebentação era forte. Apesar disso, me impressionava a estabilidade dos transatlânticos ao fundo. Cheguei a comentar com meus companheiros de viagem. Enquanto isso, na Itália, ocorria aquela tragédia com outro transatlântico. Volto a Neruda. O Chile é uma estreita faixa de terra. Em quase toda sua extensão, é um país árida, cuja principal riqueza vem da cordilheira, das reservas gigantescas de cobre. Um oásis neste deserto é o vale de Casablanca, com seus vinhedos. Um país tão seco foi adoçado por seus poetas e o Chile teve dois vencedores do Nobel de Literatura. Dpis! Gabriela Mistral, em 1945, e Neruda, em 1971. Neruda tina suas três casas – em Santiago, Valparaíso e na Isla Negra. Era comunista, partidário de Salvador Allender e da Unidade Popular. Nunca me canso de (re)ler sua autobiografia, ‘Confesso Que Vivi’. O que ele fala do Chile, da pátria traída, é de uma beleza que me dilacera o coração. Pinochet, o ministro da Guerra que traiu Allende, desencadeou uma repressão feroz. perseguiu, torturou e matou com seu regime dezenas de milhares de pessoas. No final, foi preso e extraditado por corrupção, o velho canalha. Belo salvador da pátria. Há uma coisa em ‘Confesso Que Vivi’ que me impressiona particularmente. Neruda escreve sobre Gabriela Mistral, a quem conheceu, quando jovem. admira-a como poetisa – hoje em dia elas preferem ser chamadas de poeta. Mas há, não sei, uma amargura, um ressentimento. Gabriela era uma dama austera, rígida. Uma aristocrata? Ela escreveu sobre a maternidade, sobre a ligação entre mãe e filho, mas nunca se casou, nunca teve filhos, viveu sempre uma viveu isolada – mais tarde, nos EUA -, com aquela secretária. Seus poemas sobre a maternidade desencadearam rumores. A ‘senhora’ teria tido um filho escondido. Ela se fechou mais ainda e quando saiu de casa, no interior do Chile, para receber seu Nobel, na Suécia, teve de atravessar, de trem, boa parte do país. Populações inteiras a esperavam nas estações, mas Gabriela, ressentida, viajou à noite para não encontrar esse povo que a desgostara. O relato que Neruda faz disso é a coisa mais pungente que isso. Ele quer ser duro com ela, mas, no fundo, a compreende mais do que gostaria e quando ele próprio fala da traição a Allende, a decepção e a tristeza são flagrantes. Outro dia, na TV, vi parte de um documentário sobre o golpe. Não consigo passar por essas ruas sem imaginar o Chile fechado, pós-Pinochet, que Costa-Gavras reproduziu em ‘Missing, o Desaparecido’. Ando por aqui e me vem sempre aquele cavalo branco perseguido pelos tiros dos militares. É uma das grandes metáforas da liberdade ameaçada, criadas pelo cinema.