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Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2007 | 11h37

Pode Crer. Fui ver o filme do Arthur Fontes na segunda-feira e até agora não arranjei tempo de postar nada sobre ele. Atendendo a pedidos, lá vai. Achei bem legal. A atriz Maria Flor, jovens, resquícios da ditadura – quando comentei essas coisas alguém no jornal me perguntou, ‘Ué, ‘É Proibido Proibir’ 2?’ Nada a ver com o filme de Jorge Durán, do qual gosto muito. Mas ‘Pode Crer’ também não é um ‘Malhação’ mais sofistidicadinho, nem um ‘American Pie’ à brasileira, embora a vontade de fazer um filme teen talvez esteja mais próxima desses títulos do que de ‘É Proibido Proibir’. Achei muito interessante que Arthur Fontes tenha situado seu filme em 1981, num período que, no Brasil, correspondia à abertura, os exilados estavam voltando, mas internacionalmente já marca a consolidação de um modelo de economia e ideologia (Reagan, Margaret Thatcher) que levou a esse novo mundo globalizado que a gente vive hoje. A essência da competitividade que caracteriza as economias neoliberais já está toda em ‘Pode Crer’. Maria Flor faz essa jovem que vem da Europa, filha de exilado. Quer ser diretora. Envolve-se com o bonitão da escola, que quer ser músico. Está todo mundo numa fase de transição da vida. A garota que dá com certa facilidade, a virgenzinha, a traumatizada. As remediadas e as riquinhas, que são pré-patricinhas. Os garotos. Ninguém sabe direito o que quer, mas todos experimentam essa necessidade de encarar, de tomar um rumo na vida. Os jovens, pressionados pelos pais (o músico) ou por iniciativa própria (o amigo dele, que abandona a banda), encaram a necessidade de carreira. Acho que Arthur Fontes fez um filme que, na superfície, parece bem superficial, mas proporciona camadas de leitura. Ele tem um belo elenco, uma trilha maravilhosa. O mais incrível é que sendo um filme de happy end, ‘Pode Crer’ me produziu uma sensação muito estranha. Tudo se ajeita no desfecho, como se espera neste tipo de programa, mas eu confesso que saí da sala de projeção do RoboCop, onde foi realizada a cabine de imprensa, lá na Av. Nações Unidas, meio deprê. Acho que, no limite, ‘Pode Crer’ é um filme triste. Sei que os diretores e distribuidores detestam esse adjetivo mais do que qualquer outro, porque o público detesta filmes tristes. Mas senti essa tristeza, como em ‘O Céu de Sueli’. Existe essa possibilidade de leitura em ‘Pode Crer’, não sei se o Arthur quis fazê-la, ou se foi como eu recebi o filme dele. ‘Pode Crer’ tem um lado de Truffaut. Não, não é a coisa do romance, mas é um sentimento que percorre certos filmes de François, ‘Jules e Jim’ e ‘O Quarto Verde’, por exemplo. A saudade das coisas mortas ou a nostalgia das coisas ainda vivas, mas que vão desaparecendo. Há naquele happy end uma idéia (honesta) de que as coisas nunca são como a gente pensa, que para todo ganho há sempre uma perda e que, mesmo quando tudo dá certo, as coisas nunca são como sonhamos e nada traz de volta ‘o esplendor na relva’, como a epígrafe de ‘Clamor do Sexo’, de Elia Kazan, retirada de um poema de Woodsworth. Eduardo Marques, que faz a assessoria da Conspiração, tinha me dito, já faz um tempo, que achava que eu ia gostar. E não é que gostei mesmo?

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