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‘Pobre Scott…’

Luiz Carlos Merten

23 Julho 2010 | 10h04

Ernest Hemingway, que acompanhou o declínio de F. Scott Fitzgerald, o seu afogamento no álcool e nas drogas, se referia a ele como ‘o pobre Scott’. O próprio Fitzgerald faz um personagem dizer, diante do cadáver de Jay Gatsby, em ‘O Grande Gatsby’ – ‘Pobre fdp.’ E Joseph L. Mankiewicz, com sua autoridade de produtor, diretor e roteirista, vencedor de quatro Oscars, dois como diretor e dois como roteirista – por ‘Quem É o Infiel?’ e ‘A Malvada’ –, ousava dizer que o autor de ‘Gatsby’ e ‘Suave É a Noite’ não sabia escrever para cinema. O problema, segundo Mankiewicz, é que Fitzgerald era palavroso, excessivamente literário, e seus diálogos para filmes não funcionavam nem quando ‘recitados’ pelos melhores atores. Mas Fitzgerald bem que tentou. Pouquíssima coisa que ele escreveu para ‘Um Ianque em Oxford’ sobreviveu no filme de Jack Conway e muita gente até hoje se pergunta no que Fitzgerald contribuiu, exatamente, em ‘…E o Vento Levou’. Embora, por sua concepção, Scarlett O’Hara pareça uma heroína tipicamente fitzgeraldiana – jovem, linda, frívola e determinada –, é pouco provável que o escritor, mesmo tendo trabalhado sem crédito para o produtor David Selznick, tivesse algo a ver com isso. Por que estou exumando F. Scott Fitzgerald aqui no blog? Ao chegar ontem em casa, havia um pacote da Paramount me esperando, com os DVDs de ‘Ilha do Medo’, ‘Grease – Nos Tempos da Brilhantina’ (mais uma edição de colecionador) e ‘O Grande Gatsby’, a versão do começo dos anos 1970, com Robert Redford como Jay Gatsby e Mia Farrow como Daisy Buchanan. Acho o diretor Jack Clayton um caso muito interessante. ‘Almas em Leilão’, que deu o Oscar para Simone Signoret, e ‘Os Inocentes’ estabeleceram sua reputação, mas depois ele não parece ter feito outra coisa senão tentar destrui-la. ‘Crescei-vos e Multiplicai-vos’, ainda tinha alguma coisa, o roteiro de Harold Pinter, e ‘Something Wicked This Way Comes’ também tinha a história de Ray Bradbury, mas ‘O Grande Gatsby’ não dá. Por volta de 1970, algo estava se passando no cinema norte-americano, e na Paramount. Com a nova direção do estúdio, na época, a Paramount investiu numa linha de filmes-eventos, meticulosamente preparados (e lançados). Deu certo com ‘Love Story’, História de Amor, de Arthur Hiller, e ‘O Poderoso Chefão’, de Coppola, mas deu tudo errado com ‘Gatsby’, malgrado o roteiro de Coppola, que adaptou o livro de Fitzgerald. O romance sempre teve mais sorte com seus atores do que com diretores e atrizes. Alan Ladd havia sido um Gatsby impressionante em ‘Até o Céu Tem Limites’, de Elliott Nugent, de 1949, e Robert Redford pode ter nascido para fazer o papel, para o qual parecia talhado, na versão de Clayton, de 1974. Pode-se achar certa graça em Betty Field, tão petulante no ‘Gatsby’ de Nugent, mas Mia Farrow, por mais que goste da ex de Woody Allen, é uma Daisy equivocada como o restante do elenco de Clayton. É neurótica, mais parece Zelda Fitzgerald saída de uma de suas internações, e gélida. Mas eu sempre fico triste por não gostar de ‘O Grande Gatsby’. O filme é muito bem produzido e tem aquela trilha linda de Nelson Riddle, que ganhou o Oscar. É belo e triste ver Jay/Redford, embalado naquela música, olhar para a luz que representa, metaforicamente, a mulher inalcançável, Daisy. O livro e o filme são sobre esse garoto pobre que se torna milionário e se muda para perto da casa onde mora Daisy, seu amor de juventude. Daisy é a pobre menina rica e está casada, mas complacente – e frívola, como boa heroína de Fitzgerald – aceita que Gatsby lhe faça a corte, o que termina por desencadear um processo doentio e potencialmente mortal. O livro comporta múltiplas leituras – é um funeral do sonho americano e uma cínica observação de que o poder está na classe social, não no dinheiro. Será isso, ou só isso? O livro, no fundo, é sobre Scott/Zelda, um ato de exorcismo, que Jack Clayton entendeu como tal, de um homem enredado na teia de uma mulher maligna. Daisy/Zelda não é vítima, mas manipuladora, e corrupta, e cruel. É o filme que realça a dureza das linhas do rosto de Mia Farrow, que Woody Allen, na sua fase de apaixonado, atenuava fazendo dela a mulher perfeita, de ‘Hannah e Suas Irmãs’ a ‘Alice’. Fecho os olhos e consigo ‘ouvir’ a música de Nelson Riddle, aquele solo tão era do jazz. Trouxe o DVD para a redação do ‘Estado’, para dá-lo a Antônio Gonçalves Filho, que ama não sei se o filme, ou a trilha. E para fechar o post – vocês sabiam que Visconti teve como projeto um filme sobre Scott e Zelda? Seria sobre a fase na Riviera, quando a mansão deles acolhia todos os expatriados, Scott já não tinha volta como bêbado e Zelda era louquinha de pedra. Não me lembro agora se Visconti substituiu o projeto por ‘Morte em Veneza’ ou se deu conta de que sua adaptação de Thomas Mann já englobava o que queria dizer sobre a crise do artista e a ruptura do casamento. Gostaria, de qualquer maneira, de ter visto esse Visconti apenas sonhado, até porque Zelda seria Julie Christie. Já pensaram?