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Pobre García Márquez!

Luiz Carlos Merten

02 Outubro 2007 | 09h05

RIO – Deus do céu! E não é que errei o filme que o Mike Newell adaptou do García Márquez? O Alysson pode tirar sarro (e o Visconde de Sabugosa também pode se ufanar de ter puxado os aplausos para o Fado Flamenco em Fados, do Carlos Saura – mas ele deveria ter feito isso antes com o Fado Tropical, do Chico). Falando sério. Ricardo tem certa razão, ou tem razão quando diz que Mike Newell é um cara cheio de atos e baixos e que é um medo saber que um inglês esteja se aproximando do universo fantástico do escritor colombiano. Não gosto da adaptação do Rosi, diretor a quem, de resto, admiro muito; acho Erêndira digno, mas certamente não gosto nem um pouco de Veneno da Madrugada. Concordo com o Ricardo que Ripstein (Ninguém Escreve ao Coronel) e Birri (Un Señor muy Virejo…) fizeram as melhores adaptações de García Márquez. Vou tentar ver (amanhã de manhã, na cabine de imprensa) O Amor nos Tempos do Cólera sem preconceito. Sei que pode ser difícil, mas Javier Bardem, Fernanda Montenegro e Catalina Sandino Moreno, que estão no elenco, valem o sacrifício (e a última estará no Rio, com o diretor). Quero admitir, comigo mesmo, que acho Mike Newell um bom narrador. Esse cara tem quilômetros de estrada. Fez, há milênios, uma adaptação de O Conde de Monte Cristo, que era perfeitamente anódina. Newell começou a mostrar alguma coisa quando fez Dançando com Um Estranho, depois acertou a mão com a comédia Quatro Casamentos e Um Funeral, que é deliciosa. Desde então, Newell tem feito um pouco de tudo. Incursionou pelo cinema da Máfia (Donnie Brasco) e, depois do Cuarón, fez outra boa adaptação de Harry Potter. Agora, encara o corpo a corpo com García Márquez. Acho que condensar/narrar não é o problema. É mais uma questão de clima, de afinidade seletiva. Sei que ele se cercou de um monte de gente bacana e o Antônio Pinto fez a música, o que já é uma garantia. O que quero dizer, mesmo com o risco de receber pedradas, é que Mike Newell tem crédito comigo desde que fez O Sorriso de Mona Lisa. Acho o filme lindo. Havia visto, pouco antes, Longe do Paraíso, de Todd Haynes, que amo, e descobri em Mona Lisa o mesmo universo, com semelhanças muito grandes. O título acima refere-se ao meu engano, espero que não ao filme que vai encerrar o Festival do Rio.