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Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2010 | 13h19

Havia perdido ‘Pixo’ no Festival do Rio, como perdi outras tantas coisas. Descobri muito tarde que ‘A Solidão dos Números Primos’ integrava a programação. Consegui ver o filme na última sessão (lotada), mas quando corri atrás do diretor Saverio Contanzo ele já tinha ido embora, com sua atriz. M…! Não consegui encaixar ‘Pixo’ nos meus horários, mas a proposta me pareceu importante. Um documentário sobre pixadores de São Paulo. Ontem, estava no Centro. Resolvi conferir o que passava na Galeria Olido. Lá estava – de 1º a 14, às 19h30, está ocorrendo o lançamento do filme de João Wainer e Roberto T. Oliveira. Não sabia! Afinal, estava fora da cidade há um tempão, deletando e-mails como louco, porque minha caixa vivia lotada. Fiz um pouco de hora e fui ver ‘Pixo’. Já disse que gostei. Nem foi tanto um apreciar estético, mas achei o filme muito interessante e confesso que ele me ajudou a enfrentar os próprios preconceitos. Como todo mundo ‘de bem’, também me irritava, já estou colocando no passado, ver as pixações de prédios e muros, principalmente no Centro de São Paulo. Aquilo é arte? É vandalismo? O filme dá voz a pixadores. A maioria dos ‘manos’ destila ódio, agressividade, mas existem os que, falando a mesma língua, refletem sobre o que significam aquelas pixações. Dizem coisas profundas, maravilhosas. Falam sobre a exclusão social, sobre a estética buscada na escrita dos bárbaros europeus. Os pixadores são os novos bárbaros. Lá pelas tantas, estava completamente imerso no universo daquela garotada, viajando no protesto da trilha de Sabotage e Mano Brown. Chorei! O garoto – Flip – que cai do prédio onde havia feito a escalada (e morre), o jovem que está sendo algemado e grita que é um artista, tudo é muito impressionante. O fazer arte mudou muito. As fronteiras ampliaram-se. Quem, além de mim, ainda cita Van Gogh na carta ao irmão Theo, dizendo que gostaria que sua pintura servisse de consolo? Esse mesmo garoto proclama – o que ele faz, com os meios de que dispõe, para expressar a revolta de sua geração não é arte, mas por que os burgueses que enchem o c… de tinta e peidam na tela são artistas? O crítico de arte que revela sua insatisfação pelo grafiti, por ser tão comportado, provoca ao dizer que o dia em que a pixação for considerada arte, e é, para ele, as madames que agora protestam vão contratar pixadores para dar um trato em suas paredes. ‘Pixo’ merece atenção. Eu mesmo, saboreando tudo aquilo como nopvidade – confesso -, acho que teria de rever o filme para avaliar melhor sua ‘feitura’. A fatura, como expressão de um fenômeno de comportamento, é muito forte.

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