Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Piratas no fim do mundo

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Junho 2007 | 13h23

Fui ver ontem dois filmes no Unibanco Arteplex. Tinha ótimas referências sobre Alpha Dog, do Nick Cassavetes, mas terminei passando por uma experiência rara. Aquela história de jovens que se enredam num seqüestro e chegam ao assassinato por nada, me deu um imbroglio tão grande no estômago que, quando o filme terminou, corri para o banheiro, com ânsia de vômito. Juro! Vi Alpha Dog à tarde. À noite, voltei ao Shopping Frei Caneca para ver Piratas do Caribe 3 – No Fim do Mundo. Antes do filme, os comerciais. Temo ser injusto, mas o horário programado da sessão era 20h50. Fui tomar um café e, quando vi, já estava na hora. Entrei correndo (não havia mais fila), mas me enganei, achando que o filme já ia começar. Aproveitando o fato de que se trata de um blockbuster, um filme de grande apelo comercial – estreou com 700 cópias, em todo o País, quase metade do circuito exibidor brasileiro –, Adhemar Oliveira e Leon Cakoff (proprietários) e a Rain Network nos brindaram com 15 minutos, no mínimo, de comerciais. Quando disse que temia ser injusto, queria dizer inexato. Acho que, na verdade, foram 20 minutos, porque o filme começou às 21h10, ou 12. Além do game do filme e dos inevitáveis comerciais do Unibanco, passaram dois da marca Puma, um da revista Piauí, que achei particularmente ofensivo – a idéia, em síntese, é a seguinte: você já leu a Piauí deste mês? Não, né, porque está aí perdendo tempo no escurinho; que coisa mais idiota –, outro que nem me lembro sobre o que anuncia – uma família volta do supermercado e transforma o ato de guardar as compras num jogo de que todos participam –, mais uns quantos que também foram para o ralo e os trailers de Ratatouille (ótimo) e de Primo Basílio, que Daniel Filho adaptou do romance de Eça de Queiroz e eu já vi (é bom, tomem nota). Finalmente, chegamos ao Piratas. Vou morrer sem entender o sucesso dessa série. O primeiro filme era legal, o segundo era um porre, exagerando em todo (até na viadagem contida na interpretação de Johnny Depp), o terceiro tenta a síntese, buscando um fecho para a trilogia, mas exagera nos efeitos e conta uma história tão cheia de reviravoltas que é incompreensível. Até aí, tudo bem. Admiti outro dia que não havia compreendido nada da história de À Beira do Abismo, de Howard Hawks, que vi em Paris, mas lá isso não era problema, tal a riqueza da mise-en-scène (e o humor inteligente dos diálogos). Quase me virei para ver quem era, porque em todo o cinema havia apenas uma pessoa, uma mulher, que ria com gosto das piadas, bem atrás de mim. Eu não consegui me interessar por aquela multiplicação de Johnny Depps e confesso que só ri em duas cenas com o macaquinho, quando ele deflagra o foguete e, depois, quando fica tiritando de frio, ao chegar nas geleiras do fim do mundo. Achei particularmente cretino o episódio da Cíclope, que assume proporções gigantescas. Alguém me explique aquilo, por favor. Não, é melhor que não expliquem, mas sintam-se à vontade para comentar e, se tiverem gostado, me esculhambar. Quando entrevistei o propdutor Jerry Bruckheimer, comentei com ele o sucesso da série e o fato de ela ter quebrado uma escrita. Filmes de piratas foram uma tendência no passado, mas não faziam mais sucesso em Hollywood. Bruckheimer admitiu que não havia uma fórmula, mas ele procurava colocar no filme o que gostaria de ver na tela. O que ele gosta coincide com o gosto do espectador médio, vejam que coisa. Rodrigo Fonseca, do Globo, disse que não gostei do Tarantino, em Cannes – Death Proof –, porque é uma coisa geracional. É verdade. Estou muito velho para aquela palhaçada. O princípio deve valer para Piratas do Caribe. Corro o risco de parecer o próprio matusalém, mas saí do cinema, ontem, com vontade de rever Pirata Sangrento, de Robert Siodmak, com Burt Lancaster, Nick Cravatt e Eva Bartok, de 1952. É, para mim, o melhor de todos os filmes de piratas. Não tem os efeitos de Piratas do Caribe, mas tem ação e humor para ninguém botar defeito. Eu não ponho. As piruetas de Lancaster e Cravatt, que haviam sido parceiros de circo, são antológicas, na cena da fuga. Acho que o que me irrita é isso – Gore Verbinski, o diretor da série sobre Jack Sparrow, não tem a menor noção de timing. Seu filme não é leve. A movimentação é falsa. Mas todo mundo vê, porque não é só um filme – é um evento (e em 700 salas, como não ver?). O distribuidor ganha dinheiro, o exibidor, com o acréscimo dos comerciais, também. Eu me senti lesado. Procon no Piratas, pelamor deus.