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Cultura » Pinter, Losey e a velha luta de classes

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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2008 | 20h08

Tenho um amigo que é assinante da ‘Folha’. Foi ele quem me contou que Harold Pinter havia morrido e acrescentou que o fato de isso ter ocorrido do Natal permitiu que o jornal publicasse um texto – que não li – de Moacyr Scliar, considerando irônico que o autor tivesse morrido justamente em 25 de dezembro. Muito mais irônica fopi a morte de Charles Chaplin, o criador de Carlitos, em pleno Natal de 1977. Virou uma data inesquecível para mim. Trabalhava em ‘Zero Hora’, em Porto Alegre, estava numa fase em que não me era autorizado escrever sobre cinema, mas era feriado, estava só eu da área no plantão e tive – ou pude – enterrar o Chaplin. Sei que acrescentei à cobertura, ao material de agência, um texto meu, de análise da obra, que nem sei se foi parar no livro ‘A Paixão do Cinema’, em que a Secretaria Municipal de Cultura de Porto reuniu minha produção em jornais do Sul. Na época, aquilo me produziu uma euforia e uma certeza de que eu queria – e iria – voltar à área, o que demorou mais alguns anos, mas ocorreu. Volto à morte do Pinter. No cinema, seu nome é indesligável do de Joseph Losey, para quem escreveu os roteiros de ‘O Criado’, ‘Estranho Acidente’ e ‘O Mensageiro do Amor’, além de outro roteiro, nunca filmado – mas que foi editado como livro -, adaptando ‘Em Busca do Tempo Perdido’, o romance ‘fleuve’ de Marcel Proust. Losey encontrou em Pinter o autor perfeito para o tipo de batalhas sexuais e grilhões psicológicos em que gostava de envolver – e sufocar – seus personagens. O termo é bem sufocar porque Losey, preocupado em estabelecer tensões sociais – a velha ‘luta de classes’ -, era mestre em situar seus personagens em espaços fechados, claustrofóbicos, que filmava sempre por meio de imagens ‘flamboyants’. Foi uma parceria e tanto, mas Pinter também escreveu ‘A Morte não Manda Aviso’, e eu sempre tive uma queda por ‘The Quiller Memorandum’, o melhor filme de espionagem não adaptado de John Le Carré, nos anos 60 – estou falando de espionagem a sério, não de James Bond -, com George Segal como o agente que caça neonazistas numa Berlim que evoca, fantasmasgoricamente, a Viena de ‘O Terceiro Homem’, de Carol Reed. Não sei, sinceramente, se ‘A Morte não Manda Aviso’ resiste, hoje em dia, mas acho que sim, porque é tudo tão ambivalente – os personagens de Max Von Sydow, George Sanders e Senta Berger, atriz alemã que fez carreira em Hollywood, filmando com Peckinpah (‘Juramento de Vingança’) e Carl Foreman (‘Os Vitoriosos’) – que o filme permanece na minha lembrança.