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Luiz Carlos Merten

29 Junho 2009 | 10h46

Reconheço que sou muiito impulsivo e saio escrevendo sem pesquisar. Volta e meia ocorre de eu ter de fazer correções e é curioso que muitas vezes eu já as fiz antes de ler os comentários em que alguns de vocês me desancam. Sei que me exponho, mas fazer o quê? Prefiro errar e me corrigir – ou ser corrigido, o que é uma forma de conversa, ou não? – do que mudar meu ‘método’, como se diz. Tudo isso para dizer que errei feio no post sobre as ‘imagens’. Henri Decae realmente foi um grande da fotografia e trabalhou com Clément e Truffaut, mas o raciocínio talvez devesse ser o inverso. Disse que nunca entendi como Truffaut, que detestava o cinéma de qualidade, havia buscado o fotógrafo de Clément, que era um dos máximos representantes desse cinema, para fazer ‘Os Incompreendidos’. Na verdade, ‘Os Incompreendidos’ é anterior a ‘O Sol por Testemunha’ e foi Clément quem buscou Decae justamente porque queria desmoralizar os jovens da geração nouvelle vague, mostrando que ele, um veterano de ‘regras fixas’, poderia fazer um filme liberto de regras, mas para isso ele precisava de um grande fotógrafo, habilitado às filmagens externas (e em alto-mar), necessárias para a sua adaptação de Patricia Highsmith. Cheguei ontem à noite em casa, após o teatro – fui ver ‘A Noviça Rebelde’, o melhor (menos ruim) musical da dupla Moeller/Botelho – e vi um pouco de TV paga, o horroroso ‘Desejo de Matar 2’, com Charles Bronson. É impressionante como o filme precisa ser tendencioso na sua exposição da violência do mundo para tornar o espectador solidário com o vigilante Bronson. E o filme é muito malfeito, ou usa essa falta de acabamento plástico e dramático, para reforçar a precarierdade do mundo no inconsciente do espectador. Cansado daquelas imagens repulsivas, deitei-me, mas não consegui conciliar o sono. Fiquei pensando nas imagens de ‘Os Amantes’, que acaba de sair pela CultClassic, nas de ‘As Duas Faces da Felicidade’, lançado pela mesma distribuidora. Não creio que tenha de mudar nada na parte do texto sobre o preto e branco de Decae no filme de Malle ou sobre as cores impressionistas no de Varda. Mas vamos à exatidão. Decae foi o fotógrafo eleito da geração pré-nouvelle vague. Foi ele quem fotografou ‘Le Silence de la Mer’ e ‘Bob le Flambeur’ para Melville, considerado um dos precursores do movimento de renovação/transformação do cinema francês nos anos 50. Decae fotografou até ‘O Samurai’, também para Meville e com Delon (o astro de ‘Plein Soleil’). Também fotografou os primeiros filmes de Malle, outro precursor, e os de Chabrol, esse sim um autor ‘nouvelle vague’. Decae fotografou ‘Ascensor para o Cadafalso’, ‘Os Amantes’, ‘Nas Garras do Vício’, ‘Os Incompreendidos’ e ‘Os Primos’ e só então foi chamado para Clément para ‘Plein Soleil’e, na sequência, ‘O Dia e a Hora’. No embalo, levantei-me e coloquei o DVD de ‘Les Amants’ (da Cult Classic). Peguei a cena em que Jeanne Moreau e Jean-Marc Bory – espero não haver digitado anteriormente Jean-Marc Barr, o que quase fiz agora… – saem para seu ‘passeio noturno’. Me emocionei, não sei se pelo filme ou pelo seu significado. No fim dos 50, Malle, e não apenas ele, mudava o cinema, enfrentava tabus. Mudando completamente de assunto, quando vinha hoje para o jornal, ouvia no táxi as lembranças da final da Copa de 58 – em 29 de junho, dia de São Pedro –, nos primórdios das transmissões diretas de rádio. Sempre ouvi o Flávio Alcaraz Gomes, jornalista polêmico, mas figura fuindamental do rádio no Rio Grande do Sul, contar a história de como a Guaíba, em Porto, liderou a transmissão – ‘heróica’ como a própria batalha da seleção, quando enfiou aqueles 5 a 2 nos suecos, exorcizando os flagelos do Maracanã e da Copa de 54 (a derrota contra a Hungria, não?). Ou seja, tudo mudava naquela época. O cinema, a comunicação. Sei que misturei tudo, mas olhando aquela Jeanne Moreau, tão maravilhosa, tão intensa… Deus! Que o cinema nos oferece sensações e experiências que podem ser inesquecíveis!

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