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Luiz Carlos Merten

21 Março 2008 | 09h37

Não tenho postado nada aqui no blog sobre filmes aos quais dei toda atenção no ‘Caderno 2’. Pode ser medo de ficar me repetindo, mas a verdade é que quero postar alguma coisa sobre ‘Juízo’ e ‘Chega de Saudade’ para que vocês possam se manifestar sobre os filmes da Maria Augusta Ramos e da Laís Bodanzky. Adorei ‘Juízo’ e virei tiete da juíza Luciana Fialla, que acho pop no melhor sentido do termo (o papa João Paulo II não era pop também?). Acho que já contei para vocês que, quando estou nos EUA, adoro ver na TV aqueles programas sobre juizados de pequenas causas, em que as pessoas levam seus ‘barracos’ para um juiz (ou juíza) julgar. Sempre fiquei pensando se aquela gente era mesmo do ramo – magistrados – ou se eram atores. São magistrados, só podem ser, e a juíza Luciana Fialla faria um programa maravilhoso no Brasil. Imagino que seus colegas iriam cair matando, mas acho que, barraco por barraco, se é para ser reality show, seria muito melhor ver ‘Juíza Luciana’ (e tomar lições de cidadania com ela, que é tão legal) do que ficar pensando quem vai comer quem nos BBB da vida. Quanto ao filme da Laís… Bem, eu amo ‘Bicho de Sete Cabeças’. Tenho pelo filme o mesmo carinho que dispenso a ‘Rocco e Seus Irmãos’ e uma vez até escrevi um texto sobre os filhos de Visconti no cinema da Retomada (‘Bicho’, ‘Lavoura Arcaica’, ‘As Três Marias’ etc). Conversei longamente com Laís Bodanzky e seu marido roteirista, Luiz Bolognesi, para a entrevista que saiu ontem no ‘Caderno 2’. Conversamos sobre Scola, ‘O Jantar’, que foi a referência para ‘Chega de Saudade’, mas eu quero dizer que a minha leitura do filme da Laís privilegia a palavra (e ela adorou porque acha que isso valoriza muito o trabalho do Luiz). Leiam no ‘Caderno 2’ de ontem.Quanto ao deslumbramento… Confesso que é uma coisa que me preocupa. Não abro mão de visitar sets, fazer entrevistas, conhecer pessoas e, às vezes, até assumo certo deslumbramento, mas quero crer que, na hora de criticar, não tem perdão. Daniel Filho, de quem gosto bastante, brinca dizendo que quando gosto ‘muito’ de algum filme dele o máximo que dou são as duas estrelas de ‘regular’. E olhe lá! Mas vou aproveitar o embalo para falar uma coisa. Não sou contra as leis de patrocínio, em absoluto, mas vejam que situação. A APCA teve de jogar para a frente e transferiu para maio a festa de entrega de seus prêmios, que habitualmente ocorre em março. A Associação Paulista dos Críticos de Artes é uma associação sem fins lucrativos, que há mais de 30 anos entrega um prêmio prestigiado (mesmo que eu às vezes critique coleguinhas como os de teatro, que este ano resolveram premiar ‘My Fair Lady’ como melhor espetáculo – endoidaram?). Pois bem, a APCA não tem dinheiro – um puto! – para pagar os troféus e tentar oferecer um vinhozinho após a cerimônia deste ano. Como não está inscrita nas leis de patrocínio, não ganha dinheiro de empresa nenhuma. Acabou o mecenato, gente. Pensem – uma empresa poderia colocar seu banner no palco do Teatro Municipal, que ia aparecer em tudo que é jornal, revista e emissora de TV, porque a cobertura da festa é grande, mas para isso seus executivos teriam de colocar a mão no bolso e colocar dinheiro bom na parada. As empresas, de maneira geral, só querem deduzir do imposto, o que faz com que todos nós paguemos por filmes, shows, peças, livros, mas os louros são delas, que podem ostentar todos aqueles logos em créditos, folhetos e o escambau. Já que falei no ‘Bicho’… Laís fez o filme com o mínimo de dinheiro que ganhou num concurso, porque nenhuma empresa queria ligar seu nome a um filme sobre drogas e choques elétricos em institutos psiquiátricos. Se não fosse o Marco Müller, que na época era da Fabrica (da Benetton) e hoje é do Festival de Veneza, que foi colega de Laís num júri da Mostra, que gostou do filme e o levou à Itália, para ser finalizado, acho que o ‘Bicho’ era capaz de estar aí até hoje, esperando… Não sou contra tirar dinheiro do imposto de renda que as empresas devem para investir em cultura, mas às vezes…