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Pílulas de Claude Chabrol

Luiz Carlos Merten

17 Janeiro 2008 | 08h16

Ainda não escrevi nada sobre meu encontro com Chabrol, em Paris, no quadro do 10° Encontro do Cinema Francês. Fiz só o Chabrol, poderia ter feito também Benoit Magimel e Ludivine Seigner, que interpretam ‘La Fille Coupée en Deux’. Chabrol já está conformado com sua fama de cineasta ‘preguiçoso’, mas confessa que a maior ofensa para ele é dizerem que dirige preguiçosamente tal ou qual filme. Até brinquei que, para um preguiçoso, ele dá um duro danado. Em 50 anos de carreira, que completa este ano, Chabrol fez 56 filmes e mais de uma vintena de telefilmes, o que representa uma produtividade enorme (um filme e meio por ano, todos os anos). Tenho minhas preferências. Seus melhores filmes foram feitos por volta de 1970 – ‘A Mulher Infiel’, ‘A Besta Deve Morrer’ e ‘O Açougueiro’ -, mas sua carreira é muito mais rica e inclui filmes de que gosto muito. Observei que ele costuma ser freqüente nas competições de Berlim e Veneza, mas nunca Cannes e ele explicou por que detesta Cannes e só foi lá duas vezes. Vou deixar a justificativa dessas idas para a reportagem/entrevista no Caderno 2, mas não resisto a contar a origem da birra de Chabrol com a Croisette. Seu primeiro filme, ‘Le Beau Serge’, no alvorecer da nouvelle vague – passou no Brasil como ‘Nas Garras do Vício, com Jean-Claude Brialy e Gérard Blain, que depois viraram realizadores -, havia sido selecionado para a competição e, em cima da hora, sabe-se lá por quais compromissos comerciais ou políticos, Chabrol foi descartado e outro filme, de outro diretor, entrou em seu lugar. Ofendido, ele rompeu com Cannes e só voltou por causa de Isabelle Huppert e do produtor Marin Karmitz. Êpa – deste jeito termino antecipando a história e esvaziando meu texto no Caderno 2. Inteligente, espirituoso, Chabrol disse que adora o gênero policial mas não tem nenhum interesse pela mulher fatal – sua definição, digna de Nelson Rodrigues, é que ela se trata de um anacronismo, pois ‘a internet matou a mulher fatal’, segundo o diretor. Ele também disse que nunca foi, nem como começo de sua carreira, um rebelde (Jean Luc era). Para dizer a verdade, Chabrol se sente mais rebelde hoje em dia, quase octogenário (aos 78 anos). Última pérola. Quem é que Chabrol adora no cinema atual? Surpresa… James Gray, cuja trilogia ele considera sensacional e muito sólida, como cinema e investigação ética do mundo. O último longa de Gray, fecho de sua trilogia iniciada com o filme sobre gângsteres do Bronx, é ‘Os Donos da Noite’, do qual, pelo visto, só Chabrol e eu gostamos. ‘Os Donos da Noite’, ‘We Own the Night’ no original, chama-se ‘La Nuit nous Apartient’ em francês. Nem sei se ainda está em cartaz, mas é bom paca. E aquele elenco – Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg e Eva Mendes – é de ‘sonho’ (de rêve), como dizem os franceses.