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Cultura » Pierre quem? Granier-Deferre

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Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2007 | 12h49

Havia tentado postar alguma coisa de casa, mas não consegui. Sei lá por que, mas na hora de salvar, o texto sempre desaparecia. Queria falar sobre o Vitória Cine Vídeo, que homenageou Dercy Gonçalves e eu queria comentar justamente o jogo de cena de Dercy, que me evocou muito o filme de Eduardo Coutinho. Cheguei no jornal e comecei com as matérias do dia, o blog ficou para depois. Mas há pouco meu editor, Dib Carneiro Neto, me perguntou como se chamou ‘Le Chat’ em português? Perguntei por que? Morreu Pierre Granier-Deferre, diretor francês que, entre outros filmes, fez, em 1970, um chamado ‘O Gato’, com Simone Signoret e Jean Gabin. Deferre morreu na sexta-feira, mas o anúncio da morte foi feito somente ontem, após o enterro. Era um daqueles diretores franceses que os críticos não valorizam muito, mas eu adorava Deferre. ‘O Gato’ é uma adaptação de Georges Simenon, sobre esse casal de velhos que vive unido pela amargura e pelo ressentimento, até que o gato acirra os conflitos entre eles. Deferre disse certa vez que nunca se preocupou em estar na moda. Detestava firulas visuais e dizia que sempre procurava procurava se colocar, o mais eficaz e discretamente possível, a serviço de um assunto, extraindo o melhor dos atores. Justamente, os atores. Gabin e Signoret foram melhores atores no festival de Berlim por ‘O Gato’. Mais do que um cinema de autor, o dele era de ator e Signoret, de novo, era sensacional, com Alain Delon, em ‘A Viúva’ (La Veuve Couderc). Deferre fez vários filmes com Delon (‘A Fibra dos Poderosos’), Romy Schneider (‘O Último Trem’), Lino Ventura (‘Adeus Bruto’/Adieu Poulet) e Yves Montand (‘Ange, o Gângster’/Le Fils). Para mim, em seus grandes filmes, ele era tão bom quanto Claude Sautet, com a mesma despretensão estilística, a mesma vontade de fazer cinema baseado nas coisas simples (mas complexas) da vida. Sautet terminou reconhecido como grande autor. Deferre nunca obteve esse reconhecimento. Terminou fazendo filmes na TV francesa, de novo voltando a Simenon (‘Maigret e a Janela Aberta’, em 2001, com Bruno Cremer). Fui dar uma olhada no ‘Dicionário de Cinema’ de Jean Tulard. No verbete dedicado a Deferre, pode-se ler – ‘Assistente durante muito tempo, tornou-se o sucessor de Jean Delannoy, fazendo um cinema de qualidade, sem surpresas, mas impecável.’ Sem surpresas? A grande surpresa no cinema de Pierre Granier-Deferre era o ator, que ele levava além e além dos seus limites. Deferre foi casado com uma atriz, a inglesa Susan Hampshire, a quem dirigiu em ‘Breve Encontro em Paris’ (Paris au Mois d’Aout), adaptado do romance de René Fallet, com fotografia do grande Claude Renoir e com Charles Aznavour. A maioria de vocês é muito jovem para ter visto os filmes dele. Mas, nos anos 60 e 70, Pierre Granier-Deferre fazia um cinema honesto e de qualidade, que muitas vezes surpreendia. Recomendo, se tiverem oportunidade, que vejam ‘O Gato’ e ‘A Viúva’. Deferre foi um grande recriador de Simenon no cinema.

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