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Luiz Carlos Merten

13 Maio 2011 | 09h54

CANNES – Vi ontem o concorrente francês ‘Polisse’, que me impressionou bastante. O filme é sobre uma brigada de policiais que tratam de casos ligados à infância e à juventude. Muitos casos de abusos, de abandono. ‘Polisse’ é escrito, realizado e interpretado por Maiwen, uma atriz ainda pouco conhecida dos brasileiros, mas que fez um filme interessante, ‘Le Bal des Actrices’ (ou ‘des Comédiennes’). O filme é episódico, dá a impressão de ter sido muito improvisado com os atores e possui uma urgência, devido aos próprios temas, que me deixou inquieto, o tempo todo. O curioso é que cheguei na sala, estava começando e eu fiquei de pé, durante toda a projeção. Saí e fui jantar com Carlos Eduardo, de Londrina. Agora de manhã, reencontrei o Carlos na saída de ‘Habemus Papam’, de Nanni Moretti. É um filme que poderia ainda estar vendo, só pelo prazer de acompsnhar duas grandes interpretações, a de Michel Piccoli, como o papa que, recém eleito, vacila sobre a capacidade de assumir o posto, e Jerzy Stuhr, ator e diretor polonês que foi homenageado pela Mostra e que faz o assessor de imprensa encarregado de zelar pela imagem do Vaticano. Nanni Moretti deve ter se mirado no velho ‘A Princesa e o Plebeu’, de William Wyler. O papa foge e, incógnito, passeia por Roma, anda de ônibus, circula entre os fieis reunidos na Praça de São Marcos, vai ao teatro, assistir a uma representação de Chekhov. A ideia do teatro é essencial no filme, porque Moretti, ao mesmo tempo que quer discutir o papado pós-João Paulo II, tem consciência de que vivemos hoje a era da imagem e que o próprio Estado envolve um conceito de espetáculo. Estava adorando, mas o tempo todo me perguntava – como isso vai acabar? O próprio Moretti faz um psicanalista chamado para atender o pontífice. Fica prisioneiro da estrutura do Vaticano, uma ideia, a força da instituição, que Otto Preminger já desenvolvera em ‘O Cardeal’. Não fiquei muito seguro de que aquele final seja o melhor, mas o filme permanece comigo e o Piccoli, com certeza, permanece em estado de graça. Gosto de Moretti, mas lamento ter pedido a entrevista com ele. Depois de ver o filme preferiria falar com o ‘papa’. Saí do filme e caí na sessão de ‘Michel Petrucciani’, documentário de Michael Radford sobre o grande pianista de jazz. Petrucciani era anão, a correção política me obrigaria a escrever ‘verticalmente prejudicado’, mas acho mais ofensivo. A pequena estatura somou-se a um problema grave nos ossos e ele precisou, a vida toda, ser carregado, inclusive por suas mulheres. O cara tocava divinamente, foi um grande amante. Um de seus últimos concertos foi no Vaticano, para o Papa. João Paulo II parece em beatitude. É o seu funeral que Moretti filma na abertura de ‘Habemus Papam’. O próprio Petrucciani comenta como foi maravilhoso ver aquela estrutura da Igreja, todos aqueles cardeais se sacudindo enquanto ele tocava, ao ritmo da música. Moretti tem uma cena parecida. Mercedes Sosa canta ‘El tiempo pasa/Todo cambia’ e a Cúria inteira se sacode. Os filmes dialogam entre si e eu dialogo com vocês.