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‘Petrucciani’, sim

Luiz Carlos Merten

09 Junho 2012 | 11h39

Tive de vir a uma lan house do Centro. Minha filha, minha consultora técnica, não está em casa e não consegui fazer a internet funcionar. Vou aproveitar para comprar calças. Quero ver também ‘Branca de Neve e o Caçador’, que uma amiga, a Cristina, de Bauru, definiu como uma apropriação épica do mito, uma coisa assim tipo ‘O Senhor dos Aneis’. Gostaria de indicar que vocês vissem no In-Edit, festival de documentários musicais, o longa que Michael Radford  dedicou a Michael Petrucciani. O filme me tocou de uma maneira muito partricular quando o vi em Cannes, no ano passado (ou foi em 2010?). Petrucciani foi um grande pianista de jazz. Morreu aos 36 anos, vítima de uma pneumonia que adquiriu na noite de Ano Novo de 1999. Ele sofria de uma doença rara, e congênita dos ossos. Não apenas não cresceu, como os ossos se rompiam com facilidade, como os do personasgem de Samuel L. Jackson em ‘Corpo Fechado’, de M. Night Shyamalan. Por meio de depoimentos e imagens de arquivo, Radford conta a história de um sujeito extraordinário. Em princípio, tudo conspirava contra Petrucciani, mas ele possuía o dom da música, amava comida, bebida, drogas – e mulheres. Foi, ao que consta, um grande amante. São imagens… Não sei nem como definir… As mulheres de Petrucciani, que o carregam no colo, como a um bebê dotado de falo e poderoso. Não diria que Michael Radford é um grande diretor, mas há algo nele, na sua obra, que me fascina. Greta Scacchi em ‘Incontrolável Paixão’, Maria Grazia Cuccinota em ‘O Carteiro e o Poeta’, as dançarinas do ‘Blue Iguana’. Na sua adaptação de Antonio Skarmeta, o poeta Pablo Neruda, exilado na Itália, dota o tímido carteiro Massimo Troisi do poder de sedução da palavra – da poesia – para que ele possa encantar a Cuccinota. A palavra lá, a música aqui. O sublime da criação humana, o que nos transcende. Imagino que alguém possa descobrir e até se prender aos defeitos de ‘Michael Petrucciani’ como filme. Eu, quando gosto de filmes e gentes, incorporo os defeitos. Como dizia Roberto Rossellini – se a vida não é perfeita, por que a arte teria de ser? Naturalmente que grandes artistas perseguiram a perfeição, alguns a atingiram. Reconheço isso, tiro o chapeu, mas estou numa viagem de valorizar a experiência. Os diretores de ‘Madagascar 3’, Eric Darnell e Tom McGrath, na entrevista em Cannes, citaram Emerson – ‘A vida é jornada, não objetivo final.” E se a gente pensar isso também do cinema? Talvez me contradiga. A arte não é a vida, o cinema não é a realidade, sei disso. Mas a experiência, a jornada me fascina. “Petrucciani’, sim.