Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Peter Lorre (2)

Cultura

Luiz Carlos Merten

23 Março 2009 | 11h53

Peter Lorre e Sydney Greenstreet já haviam integrado o elenco de ‘Casablanca’, o clássico romântico de Michael Curtiz com que o TCM encerra hoje sua homenagem ao ator que morreu nesta data, há 45 anos. Mas a idéia de fazer deles um par – uma dupla – foi de Jean Negulesco, em ‘A Máscara de Dimitrios’. Antes do filme, o diretor. Negulesco era romeno e iniciou sua carreira em Hollywood como assistente de direção. Foi pintor e cenógrafo e os críticos gostam dizer que, em sua fase final, na Fox, após ‘Os Náufragos do Titanic’, de 1953, não fez outra coisa senão o trabalho de decorador, dispondo atores e objetos com certa elegância no formato cinemascope, em que o estúdio realizava a maioria de suas produções. São filmes como ‘Como Agarrar Um Milionário’, ‘A Fonte dos Desejos’, ‘O Mundo É das Mulheres’, ‘Papai Pernilongo’ etc. Essa fase final – mas ‘Papai Pernilongo’ tem charme – ‘quase’ fez esquecer os bons filmes do começo da carreira de Negulesco como diretor, justamente ‘A Máscara de Dimitrios’ e ‘Os Conspiradores’, de novo com a dupla Lorre/Greenstrett, e também o melodrama ‘Acordes do Coração’, com Joan Craweford, e o noir ‘Belinda’, com o qual Jane Wyman ganhou o Oscar, por seu papel de surdo/muda estuprada por um sádico. Esquecia-me do melhor de seus filmes (eu acho), ‘Telefonema de Um Estranho’, com Bette Davis e o marido dela, na época, Gary Merrill. Confesso que nunca vi um filme de Negulesco dessa fase, pelo qual tenho a maior curiosidade, o ‘indiano’, made in Hollywood, ‘As Chuvas de Ranchipur’, com Richard Burton e Lana Turner. Mas voltemos a ‘Dimitrios’. Veio de Negulesco a idéia de fazer de Lorre e Greenstreet uma dupla, um tanto bizarra, é verdade. Mas os dois completavam-se e eram ótimos no diálogo taco-no-taco. O Dimitrios do título é um escroque que, no começo do filme, é dado como morto. Lorre, como um escritor de romances policiais, fica obcecado por ele e segue sua trilha, como pesquisa para um livro. Greenstreet também caça o criminoso – que está vivo – e os dois terminam se unindo. Apesar de todo o esforço do pessoal do TCM – sorry –, decepcionei-me porque o filme passa dublado e Lorre e Greenstreet, falando em português, não dá. Lorre não tinha só ‘aquele’ físico. A voz completava o conjunto, uma voz fina, meio sussurrada. Greenstreet, pelo contrário, era tonitruante, de acordo com sua volumosa figura. Mas o filme é legal, e você vai perceber porque Bertrand Tavernier, um entusiasta de ‘A Máscara de Dimitrios’, fez com que Dexter Gordon e François Cluzet repetissem um diálogo do filme, como homenagem, em ‘Por Volta da Meia-Noite’.