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Luiz Carlos Merten

17 Fevereiro 2011 | 17h27

BERLIM – Desculpem-me por ser o último com as primeiras no blog, mas passei o dia correndo. Para ver filmes, fazer entrevistas, enviar matérias para o Caderno 2. Mas o dia foi gratificante para mim. Comecei assisatindo a um filme coreano que me encantou. Come Rain, Come Shine, de Lee Yoon-ki, me pareceu um dos grandes filmes dessa Berlinale. Quando comentei com José Carlos Avellar, meu amigo fez cara de pouco caso – É porque você gosta de gatos, comentou. É mais do que isso. De alguma forma, o filme coreano faz a síntese, para mim, dos dois maiores filmes da Berlinale, o iraniano de Asghar Fahradi, Nader and Nisim, A Separation, e o de Bela Tárr, O Cavalo de Turim. Como o primeiro, trata de uma separação, mas sem a urgência social da obra do Irã. Como o segundo, trabalha o tempo de uma forma especial e constroi sua força numa mise en scène tão precisa quanto detalhista, embora, aparentemente, mais simples. Estou convencido de que, apesar de certos temas que reaparecem em diversos filmes, o que tem dado o topm dessa Berlinale que a maneira de tratar o tempo. As narrativas näao andam sendo tradicionais. Os cineastas ora comprimem ora dilatam o tempo. Filmes que, de certa maneira, não têm histórias, apenas um acúmulo de detalhes concentrados num tempo e espaço precisos, terminam revelando sua singularidade. Nada também pode significar tudo. Lee Yoon-ki é contemporânmeo, não busca as ressonâncias bíblicas de Bela Tarr. Pensei muito hoje no cinema coreano e em Kim Ki-duk. Gosto muito de vários de seus filmes – Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera, A Casa Vazia, Samaritan Girl, O Arco etc.  Houve um tempo, não tão distante assim, em que Kim Ki-duk produzia um filme por ano e frequentava com eles os maiores festivais. Já há algum tempo que ele anda sumido, substituído na preferência dos festivaliers por Bong Joon-ho e Park Chan-wook. O que mais me surpreendeu em Lee Yoon-ki nem foi tanto o rigor estético. Foi a história do casal. Logo na abertura, há um diálogo enorme, dentro de um carro. O marido leva a mulher para o aeroporto, seguem uma conversa hesitante e, de repente, ele diz que tomou uma decisão e anuncia. Está saindo de casa, tem um amante. A narrativa prossegue com ela empacotando suas coisas e o casal ilhado na casa por uma tempestade. Ele se comporta como um gentleman, ela se exaspera. Como no filme de Bela Tarr, o mundo externo quase não intervém, exceto por causa da natureza hostil (o inverno inclemente do Cavalo, a chuva que, aqui, não para). O gato do vizinho é o invasor da casa e vai merecer o [ultiom,o comentário, que fala sobre ele para, na verdade, refletir sobre o casal (da mesma forma que o marido usa o subterfúgio de cortar cebola para disfarçar o choro). Há algo de Eric Rohmer nessa maneira de encarar os problemas do casal  moderno. Lee Yoon-ki sabe do que está falando. Situa seu filme na Coreia, mas em qualquer lugar do mundo as pessoas poderão se identificar com sua dupla. Os atores são, talvez, os mais belos do festival. Ele, Yeon Bin, é um astro na TV. Ela, Im Soo-jeong, fez I Am a Cyborg, But Thats OK. São talentosíssimos. Eu dava o Ouro para Farhadi, a prata (direção) para Bela Tárr e atribuía os prêmios de interpretação aos atores de Come Rain. Depois desse belo filme e das trocentas matérias, incluindo as entrevistas que havia feito em Cancun com Michel Gondry e Seth Rogen por Besouro Verde, mais outras entrevistas aqui, finalmente encontrei uma brecha para postar. Tem uma coletiva agora que não quero perder. E logo a gala de Taxi Driver, a cópia restaurada que, na ausência de Martin Scorsese, será apresentada por Paul Schrader. Imagino que muitos de vocês gostariam de estar aqui. Até eu, que não gosto particularmente dos filmes recentes de Scorsese, reconheço que, na época de Motorista de Táxi e Touro Indomável, ele era (muito) grande. Mais tarde eu volto.