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Cultura » Perlov só chegará aos 120 na nossa lembrança

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Luiz Carlos Merten

20 Março 2011 | 13h01

Ainda não falei nada sobre a Semana da Francofonia, que, dividida em dois grandes programas, um de clássicos e outro de cinema contemporâneo, está resgatando títulos fundamentais em duas grandes mostras no Centro Cultural São Paulo e na Sala Cinemateca. Prometo fazê-lo. Também não havia falado nada da programação dedicada a David Perlov. Aqui, vou precisar ser mais intimista do que nunca. Explico – como jornalista, tenho tido certos… Qual é a palavra? Privilégios? Não é bem isso. Fiz, até onde sei, a última entrevista com Fábio Barreto, sobre ‘Lula, o Filho do Brasil’, um dia antes que ele sofresse o acidente que o deixou em coma. Com Perlov, aconteceu algo parecido. Ele morreu em 13 de dezembro de 2003. Dia 30 de novembro, publiquei no ‘Caderno 2’ a entrevista que havia feito com ele. Não saberia dizer se foi feita no dia anterior, ou dois duas antes. Perlov sentira-se mal em São Paulo, mas me concedeu a entrevista. Encontrei-o no Flat Lorena. Estava sozinho,  acamado. Conversamos, com alguma dificuldade da parte dele, e duas semanas mais tarde Perlov estava morto. Fui ao arquivo do ‘Estado’ para resgatar a entrevista. Não resisto a publica-la aqui no blog. Mais que um grande artista, Perlov foi um velhinho simpático com quem tive o privilégio de passar algumas horas numa tarde. Mal sabia eu – mal sabia ele, pelo teor da entrevista, e pelo fecho – o que iria se passar nos próximos dias. Não revisei a matéria. Publico-a como ela saiu. Espero que gostem. É a minha homenagem a David Perlov e ao ciclo que retoma o seu ‘Diário’.

David Perlov passou por maus momentos na semana passada. O homenageado de
honra do 7.º Festival do Cinema Judaico vinha experimentando, há dias, um
sentimento de extrema fadiga. Na hora de participar de um debate com o
público, o cansaço era tanto que ele baqueou, criando o maior alvoroço no
festival. “Pensaram que eu ia morrer”, diz o cineasta de 74 anos, um dos
mais conceituados do mundo, graças especialmente ao seu Diário Pessoal,
filme documentário (e autobiográfico) no qual ele mistura vida pública e
privada, registrando fatos da história de sua família contra o pano de fundo
de grandes eventos ocorridos em Israel (e no mundo).
Bem-vindo ao mundo de David Perlov. Em 1999, ele venceu o importante Prêmio
Israel para a Cultura, que o governo israelense concede a personalidades que
tenham contribuído para o enriquecimento da vida artística e para o
fortalecimento da noção de cidadania no país. O diretor também é professor
na Universidade de Tel-Aviv. Leciona cinema, naturalmente. O quê, pergunta o
repórter? História, teoria, direção, roteiro? “Tudo”, ele responde.
É um senhor simpático e comunicativo, que quando não está respirando com
dificuldade, é um falastrão. A fadiga tem vindo acompanhada de sonolência.
“Se não me mexo, se não falo, termino dormindo”, ele conta. Por isso mesmo,
fala – e conta sua história. Nascido no Brasil, em 1930, Perlov morou no
Rio, em São Paulo e Belo Horizonte. Integrante do movimento Dror na
juventude, pertence àquela geração de judeus que sobreviveu à 2.ª Guerra
Mundial para descobrir – no caso dele, pouco mais que um garoto – o horror
do Holocausto, com seus milhões de mortos em fornos crematórios, nos campos
de extermínio. Até hoje, pergunta-se como isso foi possível, mas é incapaz
de ceder ao desespero. Perlov confessa que é incapaz de se emocionar com a
dor e o sofrimento. Compreende-os, sente compaixão pelos sofredores, mas o
que o emociona de verdade, o que o leva às lágrimas, é ver as pessoas
felizes.
Vive num mundo em permanente estado de tensão, no Oriente Médio sempre
convulsionado pelas disputas entre israelenses e palestinos. Isso e o
próprio Holocausto, com sua herança sinistra, poderiam lançá-lo para baixo.
Escolheu ser um incorrigível sonhador, disposto a apostar na capacidade
humana de ser feliz. Como se formou essa personalidade singular? Com certeza
é produto das cidades e culturas diversas que ele conheceu e assimilou. Foi,
está sendo, uma trajetória cheia de surpresas – até para ele. No começo dos
anos 1950, o jovem David Perlov achava que sua vocação era a pintura. Queria
estudar para tornar-se um grande pintor e foi para Paris. Descobriu, aos 22
anos, um interesse maior – pelo cinema, que terminou por absorvê-lo,
completamente.
No movimento Dror, no Brasil, havia conhecido a futura mulher, Mira,
descendente de judeus poloneses que emigraram para o País, quando ela era
criança. Em 1958, foram juntos para Israel e no ano seguinte nasceram as
gêmeas Yael e Naomi. Durante mais de uma década, Perlov exercitou-se no
cinema israelense fazendo pequenos filmes e documentários institucionais. E
então, aos 43 anos, como escreveu Talya Halkin num perfil que dedicou ao
diretor, ele teve o estalo e mudou o eixo de sua câmera. Em vez de dirigi-la
para os outros, para filmar o mundo, dirigiu-a para si mesmo. Em 1973,
iniciou o que ficou sendo Personal Diary, um filme de seis horas de duração
que colocou seu nome no mapa do cinema mundial, ao documentar, numa
perspectiva pessoal, 30 anos de história. Mais recentemente, atualizou seu
diário filmado e fez Updated Diary – 1990-1999, que dura mais três horas.
Tempo reencontrado – O último capítulo do Diário Atualizado trata do seu
retorno ao Brasil. Veio para reencontrar o País em que nasceu. Sua
proustiana busca do tempo perdido colidiu com um País em acelerado processo
de transformação. Ele sabe que não pertence mais aqui, mas permanecem os
laços afetivos. Seu irmão, o jornalista Aarão Perlov, mora em São Paulo e
Perlov tem aproveitado os dias na cidade para vê-lo, a cada dois dias.
Lembram histórias de família, trocam experiências. Muitos críticos definem
seu estilo, ou o tom de seus diários, como nostálgico, mas Perlov não
concorda com eles. Talya Halkin, no perfil, toca, de qualquer maneira, num
ponto importante. O tom de Perlov é elegíaco, como se “o ato de gravar as
imagens fosse, na verdade, o primeiro passo para o esquecimento”.
Perlov não é o único a se filmar. O americano Jonas Mekas, irmão de Adolfas
Mekas – ambos foram figuras essenciais na deflagração do movimento conhecido
como New American Cinema, nos anos 1960 –, também documenta a própria vida,
há muitos anos. Esse tráfego entre vida privada e pública, entre identidade
pessoal e coletiva, faz dele uma figura respeitadíssima, em todo o mundo.
Apesar das vicissitudes, ele adorou conversar com o público paulistano. “Era
uma platéia muito interessada e dirigida, porque o Festival do Cinema
Judaico termina atraindo principalmente um segmento do público, mas acredito
que foi um diálogo proveitoso para ambas as partes.”
O mundo mudou muito desde que ele começou o Diário Pessoal. Hoje em dia, um
pensador – judeu – como Neal Gabler pôde escrever um livro como Vida – O
Filme, convencido de que os meios de comunicação de massa estão acabando com
a privacidade. Pelos 15 minutos de celebridade a que têm direito – segundo a
velha definição de Andy Warhol –, as pessoas hoje vivem vidas públicas e
fazem tudo, literalmente tudo, diante das câmeras da TV. Mesmo assim, o
interesse pelo Diário Pessoal e pelo Diário Atualizado segue intacto. É que
há, no cinema de David Perlov, a consciência crítica de si mesmo que faz
dele um grande artista.
Nenhuma conversa com ele estaria completa se não se falasse em Amos Gitai,
que é, na atualidade, o cineasta israelense mais conhecido em todo o mundo.
Filmes como Kadosh, Kippur e Kedma fizeram de Gitai um dos grandes do
cinema. Suas pesquisas de linguagem e política rendem ensaios elogiosos dos
críticos e lhe garantem um público cada mais numeroso, entre os cinéfilos,
mas não a admiração de Perlov. “Conheço Amos muito bem. É alguém que passa o
dia inteiro pensando na melhor forma de se autopromover. É o que determina
sua escolha de temas e o próprio estilo. Não me parece a melhor maneira de
mostrar integridade, como artista.” Perlov considera a câmera uma máscara já
colada ao seu rosto. Quando não está olhando pelo visor da câmera de filmar,
tem o olho na de fotografias. O Israeli Museum of Photography fez uma bela
exposição de suas fotos, reunidas sob o título Color Photographs 2000-2003.
São flagrantes da vida cotidiana, imagens de objetos, estudos de
personagens. Perlov fotografa tudo. Despede-se citando um ditado iídiche que
diz: “Até os 120.” É uma forma de desejar saúde, esperando que a pessoa viva
até os 120 anos. Perlov, que não se intimida pelos percalços dos últimos
dias, gostaria de chegar aos 240. Tem ainda muita coisa para viver (e filmar).