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Perfeição/imperfeição

Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2008 | 19h26

Repetiu-se o problema de outro dia. Estava acrescentando um post enorme, o primeiro do dia, aí o telefone tocou, eu fui atender e devo ter tocado em alguma tecla, antes de salvar. Foi-se o meu post. É o problema (a desvantagem) de postar diretamente, mas também tem seus inconvenientes escrever no Word para colar o texto depois. Qualquer hora meu computador vai travar pela quantidade de matérias que digito fora do layout e vão ficando acumuladas, até a próxima limpeza. Vou começar de novo. Fiz hoje um exame médico complicado, uma cintilografia. Não vou entrar em detalhes – vou poupá-los –, mas o exame produz certo desconforto e é demorado. Dura de quatro a seis horas e no meu caso demorou as seis. Pois bem. Numa das pausas, folheei revistas e jornais que se encontravam na sala de espera do setor de medicina nuclear do hospital. Folheei, como disse, mas li uma coisa que me impressionou muito. Foi numa reportagem sobre o centenário da imigração japonesa, uma matéria sobre descendentes de japoneses no Brasil e que se dedicaram à moda. Existe este estilista, Jum Nakao, que parece que nem desfila mais. Nakao conta que teve a revelação de sua vida ao visitar um templo budista no Japão. Havia uma telha fora de lugar e ele ficou intrigado com aquilo, até descobrir que era um ato intencional do arquiteto, que deslocou a telha porque não queria ofender os deuses com a perfeição de sua obra. Isso mexeu muito comigo, até porque na semana passada, em Gramado, um dos tópicos em discussão foi a imperfeição no cinema. Um dos premiados especiais, o cubano Julio García Espinoza – que não pôde receber seu Kikito de Cristal por motivos de saúde –, escreveu nos anos 60 um livro/manifesto intitulado ‘Por Um Cinema Imperfeito’. Num festival que foi marcado pela tensão criativa entre o digital e a película, discutiu-se (discutimos) muito a qualidade e a textura da imagem. O digital oferece certas vantagens – econômicas, principalmente –, mas Matheus Nachtergaele, por exemplo, fez ‘A Festa da Menina Morta’ em película porque não conseguiria obter as nuances de luz em seu filme com outra tecnologia. Saindo agora de Gramado, lembrei-me de autores, os chamados ‘perfeccionistas’ (Luchino Visconti, David Lean) ou ‘construtores’ de imagem (Alfred Hitchcock, Josef Von Sternberg), obcecados em controlar cada centímetro de tela, para que os espectadores só pudessem ver o que eles consideravam necessário. Há uma história sobre Visconti, que Bruno Villers conta em seu álbum (suntuoso) sobre o grande diretor. Visconti filmou ‘O Inocente’ em condições precárias. numa cadeira de rodas, semiparalítico e com dificuldades para se expressar. Num cena importante, ele queria que Laura Antonelli, já rompida com o marido, que desconfia de sua (in)fidelidade – ele é interpretado por Giancarlo Giannini –, usasse um véu grudado no rosto. Visconti queria que o véu ‘deformasse’ o rosto de Laura, mas por mais que o fotógrafo e o figurinista procurassem atender seu desejo, a cena não ficava como ele queria. Visconti viu ali o seu ocaso, a sua impotência criativa. O filme seria o derradeiro de sua carreira – seu testamento – e ele surtou no set, sentindo-se traído por amigos e colaboradores. Imaginem a cena. Sempre quis contar essa história pelo que ela revela de um dos grandes do cinema, em choque com as próprias limitações físicas, na sua fase terminal. O grande Visconti no ocaso, com a cabeça a mil e o corpo que não respondia mais. Lógico que haveria muitos outros casos a relatar, sobre outros artistas e até pessoas que nos são próximas. Minha mãe ficou muda e paralítica no fim da vida e também surtava quando não se fazia entender, mas agora já estou divagando demais. A observação de Jum Nakao terminou sendo o veículo para o post que eu queria acrescentar. Mas confesso que também existe um motivo menos nobre (talvez) para que eu fale nisso. Como escrevo muito rápido e não gosto de reler o que escrevo, ocorre muito de eu errar. Não é que eu não me importe, mas acho o conceito mais importante do que um nome aqui, ou uma data ali. Ainda há pouco, falando sobre o Wenders em Porto, já fui corrigido por batizar o evento na minha cidade como ‘Fronteiras do Conhecimento’. É do ‘Pensamento’ e fui correndo checar o texto de ontem no ‘Estado’, para ver se também havia errado. Estava certo. Menos mal. O blog, afinal, é mais informal e a relação mais direta torna a correção menos traumática.

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