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Perdidos nas veredas, ou O Grande Sertão de Bia Lessa

Luiz Carlos Merten

23 Outubro 2017 | 23h40

Daniela Thomas foi massacrada em Brasília, no debate sobre seu longa Vazante. Não estava lá, mas ouvi falar. Não gostei do filme, quando o vi em Berlim e até conversamos sobre isso, Daniela e eu. Ela ouviu minhas objeções, fomos civilizados, etc e tal. Respeito-a como criadora. Em Brasília, num clima de polarização, o bicho pegou. Daniela apresenta, na quarta, o Vazante na Mostra, mas não é sobre isso que quero falar. O post é sobre teatro, o Grande Sertão de Bia Lessa, que todo mundo amou – menos eu. Escrevi o texto no domingo à noite e fiquei me perguntando se valeria publicar. Aqui vai. Espero não ser ofensivo com ninguém, mas envolve coisas que estavam entaladas há muito tempo. Gostei demais da prosódia de Arábia. Há mais mineirês na hora e meia do filme de Affonso Uchoa e João Dumans do que nas quase três horas do Grande Sertão encenado por Bia Lessa. Sinto dizer mas ela ficou nas veredas de Guimarães Rosa. Pior – perdeu-se. Havia ouvido os maiores elogios, que era a coisa mais original, audaciosa, criativa, etc. Sinto, mas não é. No programa, Bia desfia sua familiaridade com o Rosa. Fez sobre Grande Sertão a exposição que inaugurou o Museu da Língua Portuguesa, realizou o projeto comemorativo dos 50 anos da primeira edição do livro para a Editora Nova Fronteira. Tudo isso nos é informado, por ela!, para legitimar/referendar o que propõe. Bia Lessa fala muito em teatro, sua devoção ao teatro, mas não assume Grande Sertão como uma peça. É um espetáculo instalação, seja lá o que significa. E ela consegue o prodígio de utilizar o texto do Rosa, mas dito de um jeito que o descaracteriza. A ideia de forçar o público a usar fones de ouvido já é de jirico. Recusei-me, mas não houve jeito. Havia momentos em que, sem o fone e apesar da parafernália montada no espaço cênico para captar o som, não dava para entender o que diziam os atores. Pergunto-me, e aqui posso ser chamado de desrespeitoso, se Bia Lessa é realmente uma encenadora ou se seu negócio é causar. Ela causa, e não de agora. Curadora de uma exposição de pintura, colocou os quadros no chão. No chão! Genialidade assim, dispenso. A dramaturgia do Grande Sertão – das veredas – é meio pífia, meio não, e Bia põe em cena todas as aves e bichos do sertão. Os atores são obrigados a um verdadeiro tour de force, mas logicamente não dá para manter uma dicção decente pulando, rastejando, saracoteando, piando feito ave, grunhindo como onça. Tem gente ali que, de qualquer maneira, nem sabe falar. A prosódia do Rosa é esvaziada do seu significado profundo por meio da coloquialização. Duas ou três cenas me pareceram tão confusas que eu já não sabia quem f… quem. Sem a riqueza da prosódia e com aquele bicharedo solto, fiquei ali, soterrado pelo tudo que significa nada – como gostaria que fosse o inverso -, deixando o tempo passar e contando internamente os minutos. O sertão está dentro de nós. Aleluia! E veio, enfim!, a revelação. Diadorim é mulher! Estou até agora tentando entender o conceito da nudez dos cabra machos, escolhidos a dedo para chacoalhar os pingolins – bem criados, não é Caio Blat? – em cena. Se a questão do gênero está criticamente no Rosa, por que esse machismo impositivo? Sei que estou na contracorrente dos elogios superlativos a Bia Lessa, mas não me digam que não entendi nada porque quem também não entendeu, ou tem dificuldade para se expressar, foi ela, mesmo jogando na cara da gente suas qualificações. Em 1997, Bia transpôs Thomas Mann para o sertão, realizando Crede-Mi. Já era… Uma empulhação? Evaldo Mocarzel editava o Caderno 2 e nunca aceitou que eu tenha achado aquilo o ó. Evaldo surtou quando defendi o Outras Histórias do Pedro Bial. (Da mesma época também é, no meu imaginário, O Sertão das Memórias, e eu sempre me pergunto o que ocorreu com João Araújo, que sumiu.) Só sei que, durante anos, ali na fase da Retomada, Evaldo me impediu de escrever sobre cinema brasileiro. Só publicava quando eu não gostava dos filmes, para fazer o contraponto ao gostei do meu colega Zanin Oricchio. Virei vilão da história. Pois havia no Bial mineiridade, paixão. Havia visceralidade no Araújo. Eram outra mídia e, se lembro, é porque tudo isso é o que falta na tediosa ‘instalação’ das veredas do Grande Sertão por Bia Lessa. Tediosa, sim. Cansei-me muito mais que qualquer um dos atores fazendo aquelas estripulias.