As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Perdas e ganhos, e ‘o processo’ de quem não tem ‘nada a perder’

Luiz Carlos Merten

18 Março 2018 | 12h54

Valeska Grisebach é outra mulher que faz lindamente um filme de homens, Western. E eu me lembro como muitos anos atrás, em Cannes, entrevistei Samira Makhmalbaf, que apresentava no festival Blackboards, sobre um grupo de professores curdos carregando seus quadro-negros itinerantes, durante a guerra. Samira venceria o prêmio do júri. Eu já ia para os 60. Ela chegava nos 20. Existe esse velho com problema de próstata, que não consegue urinar. Ao encontrar Samira perguntei-lhe como se preparara para filmar esse personagem, de onde o seu interesse? E ela, percebendo a pergunta, me respondeu singelamente que não seria artista, diretora, se não tivesse esse olhar compassivo para o outro, independentemente de idade, raça ou gênero. Samira por certo tinha um pai na retaguarda, Mohsen. Mas, numa cultura discriminatória, tornar-se diretora aos 16, com A Maçã, não era pouca coisa. E os seus temas – o mundo? Quando foi isso? Em 2000 ou há 2 mil anos? A radicalização nos separa, mesmo estando no mesmo lado da trincheira. Siamo diventati tutti nemici, como na fala chorosa de Rocco. Fui tomar café na padaria, passei pela banca. Na capa de uma das semanais, a ministra Carmem Lúcia desabafa que tem tensão no Supremo. Ah, é? Bem-vinda ao Brasil, ministra. A tensão está no ar, em toda parte. A brutal execução de Marielle Franco e seu motorista – preciso decorar o nome dele, é um desrespeito que vire esse apêndice, ‘o motorista’ – provocou indignação em parte da sociedade, mas ainda bem que estou fora das redes. Nas cartas de leitores, pude sentir as reações das pessoas de bem. Teve um que escreveu que essa equivocada, para não dizer pior – defendia negros, traficantes, viados – forneceu à esquerda a bandeira que precisava. O velho discurso, também choroso, de parte da classe média contra os direitos humanos. O que as pessoas querem saber é dos direitos ‘delas’. Anos atrás, quando João Moreira Salles fez seu documentário sobre os evangélicos, Santa Cruz, e eu achei muito interessante. O Brasil dos excluídos. A igreja integrava as pessoas, dava-lhes uma cidadania. Agora não estou certo. Os evangélicos cerram fileiras com o agronegócio no Congresso, demonizam tudo o que não é de seu interesse (ex-Pagé). A cidadania inclui a defesa do direito das pessoas ao trabalho, com o consequente dízimo. Ah, o dízimo. Não existe nada mais controverso. Cada Bíblia tem o seu dízimo. Conversei sobre isso com João Moreira Salles, no lançamento de No Intenso Agora. O risco é sempre generalizar. Entre os evangélicos deve haver joio e trigo, como em toda parte. Dentro de duas semanas, menos até, estreia Nada a Perder, a cinebiografia do bispo Edir Macerdo. O novo Cristo crucificado – não por acaso a estreia será na 5.ª feira santa. No trailer já deu para ver o bispo atrás das grades, perseguido pela grande mídia, os políticos e a Igreja. Nada a Perder ainda nem estreou e já virou um caso do cinema brasileiro, com a venda antecipada de ingressos que já o transformou num megassucesso. A grande mídia, à qual pertenço, vai ter de encarar o desafio desse filme. E, quase ao mesmo tempo, teremos o É Tudo Verdade e, dentro dele, espero!, os documentários brasileiros que estiveram em Berlim. Na terça, 20, Amir Labaki anuncia sua seleção. O Processo? Maria Augusta Ramos e o impeachment da ex-presidente Dilma. Golpe! Fiquem atentos. As próximas semanas vão exigir muito do exercício da crítica no País. E ainda estamos em março, no começo desse ano quente de eleição, e por enquanto – indefinição.