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Luiz Carlos Merten

07 Julho 2008 | 11h56

Fábio Negro destila seu ódio contra ‘Limite’, de Mário Peixoto, e os Glauber – será que a gente deveria usar o plural, ‘Gláuberes’? – da vida. Tivemos ontem em Paulínea o que deveria ter sido um debate sobre mídia e cinema brasileiro, mas Rubens Ewald Filho, o meneur du jeu, alterou o script, e o debate virou uma espécie de confessonário no qual críticos de várias mídias contaram suas origens e as primeiras relações com o cinema brasileiro. Fábio ia ter um ‘troço’, mas algumas pessoas, incluindo o próprio Rubinho, citaram Gláuber, e ‘Terra em Transe’, como seu filme brasileiro favorito. Já comentei de minha decepção com a versão restaurada de ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, que era o ‘meu’ Glauber e isso agora me deixa numa posição meio ingrata, porque admiro – racionalmente – mais do que amo ‘Deus e o Diabo’ e ‘Terra em Transe’. Não foi para ser do contra, mas assim como ‘Rocco’, de Visconti, é o filme estrangeiro do meu coração, ‘Selva Trágica’, de Roberto Farias, é o brasileiro. A imagem do cara soterrado sob aquela carga descomunal de erva, que ele tenta erguer, e o tema da prostituição forçada das mulheres, usadas como coisas, mexem comigo até hoje como mexeram quando vi o filme pela primeira vez, há mais de 40 anos. Até gostaria de ter explicitado, mas não havia tempo nem condições, que ‘Rocco’ e ‘Selva Trágica’ tem tudo a ver e que o Farias, naquele filme, é o Visconti brasileiro, falando sobre trabalho escravo do homem e ‘objetalização’ da mulher. Aliás, li o capítulo sobre ‘Rocco’ do livro de Monica Stirling, ‘Visconti’, e fui de surpresa em surpresa quanto à gênese do meu filme favorito. Quanta coisa que eu não sabia em detalhe! Monica conta de forma sucinta o processo criativo, as várias fontes que forneceram a Visconti o material para seu clássico, e também os muitos problemas que ele teve com a censura. Aliás, é impressionante como o grande diretor enfrentou problemas de censura ao longo de sua carreira. Em ‘Senso’ (Sedução da Carne), as autoridades exigiram cortes porque ele mostrava a derrota italiana na batalha de Custozza. Em ‘Rocco’, toda a seqüência premonitória do brutal assassinato de Nádia por Simone – premonitória de uma violência urbana que foi se banalizando cada vez mais – esteve na mira das autoridades, que não queriam mais saber de ‘ladrões de bicicletas’ no cinema, no quadro de uma Itália que se afirmava economicamente, por volta de 1960. É verdade que não apenas ‘Rocco’ e Visconti sofreram perseguição. Vários outros filmes de grandes diretores, incluindo ‘A Doce Vida’, de Fellini, e ‘Um Dia de Enlouquecer’, de Bolognini, enfrentaram problemas e eu não sabia que só 18 anos depois, no fim dos anos 70 (e após a morte de Don Luchino), meu amado ‘Rocco’ e todos esses filmes puderam ser vistos na íntegra, em Roma, numa programação especial promovida pela AIACE (Associazone Italiana Amici Cinema d’Essai). Misturando um pouco alhos com bugalhos, antes do debate sobre ‘Nossa Vida não Cabe num Opala’, que estréia dia 25, conversava com Miriam Chnaiderman no hall da Prefeitura de Paulínea, à espera do início da discussão sobre o filme do marido dela, Reinaldo Pinheiro (é com i!). Miriam me puxou pela manga para que eu visse as fotos de uma bela exposição ali montada, sobre a Cinemateca Brasileira. Ela estava fascinada, em especial, por uma foto de ‘Ganga Bruta’, de Humberto Mauro, de que não se lembrava no filme. Do lado havia uma foto de ‘Limite’, de Mário Peixoto, e eu confessei que sou mais o Humberto Mauro do que o Mário Peixoto, mesmo sabendo que não é necessário escolher e é perfeitamente possível amar os dois (como, aliás, faz a Miriam). Observei uma coisa, verdadeira ou não. Há quase 80 anos, o jovem Mário Peixoto fez seu filme embuído da avant-garde européia como uma experiência pioneira de cinema não narrativo. Incomoda-me como tanta gente busca construir uma história onde ela não existe, ou não deveria existir. O livro de Saulo Queiroz, que se dedicou a salvaguardar o cult de Peixoto, é todo ele uma tentativa de elaborar uma linearidade para aquelas imagens. Para encerrar, Fábio – não, ao contrário de ti, nunca tive vergonha dos filmes brasileiros a que tenho visto internacionalmente. Pelo contrário, filmes que não me haviam agradado no Brasil de alguma forma cresceram no exterior, quando eu descobri um olhar ‘estrangeiro’ mais generoso do que o meu. Quando os ‘gringos’, sejam norte-americanos ou europeus, não nos entendem, isso reforça minhas convicções de que eles não podem mesmo entender, pois são nossos ‘colonizadores’. O contrário é que me faz parar para pensar (e reavaliar). Era uma questão que queria colocar no debate que não houve, sobre cinema brasileiro e mídia. Fui para Paulínea na mesma van que levou Adhemar de Oliveira e Patricia Durães. Conversamos sobre ‘O Balão Vermelho’, que a Patrícia ama – e eu espero que vocês já tenham ido ver, ou rever, no HSBC Belas Artes – e o Adhemar, falando de lançamentos, me disse uma coisa que me pareceu muito interessante. Nossos elogios – de críticos e jornalistas – não ajudam muito os filmes nacionais (nem estrangeiros). Os filmes tendem a ir melhor na bilheteria quando a gente fala mal. Alguém explica isso de uma forma mais racional do que a mera suposição de que há um divórcio entre o gosto do crítico e o do público, e que o que o primeiro detesta é o que agrada ao segundo?