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Luiz Carlos Merten

22 Abril 2009 | 16h08

André Felipe, comentando o post sobre a lista dos 50 + da revista da Net, concorda que ‘Cidade de Deus’ merece estar na ponta e pega carona para pedir algumas indicações no ciclo ‘Pequenas Jóias do Cinema Alemão’, que começou ontem, na Sala Cinemateca. Nem sabia do ciclo, confesso. Fui procurar as informações e me animei. O ciclo, diz o release da própria Cinemateca, é uma parceria com o Instituto Goethe e exibe filmes pouco conhecidos e que, na maioria das vezes, terminam eclipsados, nas antologias de cinema, por outras obras que nem são necessariamente melhores (agora já sou eu falando). Seguindo a cronologia de produção, podemos começar por ‘Gente no Domingo’, ou ‘Menschen am Sonntag’, de 1929, retrato impressionista de um dia de domingo, por meio de cinco pessoas escolhidas na multidão anônima. A ficha no release credita o filme a Robert Siodmak e Edgar G. Ulmer, dois diretores alemães que depois fizeram carreira em Hollywood, mas, na verdade, qualquer enciclopédia de cinema vai esclarecer que Billy Wilder, Fred Zinnemann e Eugen Shuftan também participaram do projeto, cada um acompanhando um dos personagens. Também de 1929, quando o cinema começava a falar, ‘Melodia do Mundo’, de Walter Ruttmann, segue o formato de ‘Sinfonia de Uma Cidade’, do mesmo diretor, convidando o público a embarcar numa viagem pelo mundo através da música. Nunca vi ‘Os Assassinos Estão entre Nós’ e acho que não dá para desperdiçar essa oportunidade de assistir ao filme de Wolfgang Staudte, o primeiro produzido na Alemanha após a 2ª Guerra. O diretor havia trabalhado como ator em ‘O Judeu Süss’, considerado um dos mais abjetos filmes de propaganda do nazismo. Passando para trás das câmeras, Staudte fez o primeiro ataque do cinema alemão aos nazistas, contando a história de mulher que volta do campo de concentração e divide apartamento em ruínas com ex-cirurgião alcoólatra. Nessa Berlim em ruínas, são assombrados não só pelas experiências recentes durante a guerra, mas pela presença do vizinho, que foi responsável pelas execuções de mulheres e crianças. Lembro-me de que, em Porto Alegre, P.F. Gastal falava muito no filme de Wolfgang Staudte e de como seu título era aquele que Fritz Lang queria ter dado a ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’. Também nunca vi ‘Pista de Pedras’, de Frank Beyer, de 1965, sobre o cotidiano de trabalhadores da construção civil na antiga República Democrática da Alemanha. O filme dispõe de ótima reputação. Beyer estudou em Praga com Milos Forman e era ligado aos autores da nouvelle vague checa e o problema é que o partido (comunista) baniu ‘Pista de Pedras’ dos olhos do público pelos motivos que vocês podem imaginar. Essa história bem poderia ter originado ‘A Vida dos Outros’. Finalmente, ‘Karl May’, de Hans-Jurgen Syberberg, de 1974. Autor de filmes como ‘Ludwig – Réquiem para Um Rei Virgem’, ‘Winifred Wagner e a História da Casa Wahnfried’ e ‘Hitler, Um Filme da Alemanha’, Syberberg reflete sobre mitos que moldaram o imaginário alemão, num estilo teatralizado que adota, por vezes, o formato dos tableaux-vivants. ‘Karl May’ é sobre o escritor de romances populares supostamente passados no Velho Oeste dos EUA, com personagens como Mão de Ferro e Winnetou. Nos anos 60 e 70, o cinema alemão voltou-se para Karl May numa série de westerns teutônicos que a Condor (se não me engano) distribuía no Brasil. Stewart Granger, Lex Barker e Pierre Brice eram os atores. Syberberg, valendo-se do fato de que o próprio Hitler era fã de Karl May e incentivava os soldados do Reich a lerem seus livros, faz aqui o que que fez em todos seus filmes – questiona-se sobre as origens do nazismo e sobre como a fantasia e o mito se moldaram numa forma idealizada de encarar o mundo. Ainda a respeito de Karl May, acho incrível a história sobre como a polícia política da ditadura brasileira o confundia com Karl Marx e baixava o pau em que lia Mão de Ferro – achavam que era ‘O Capital’, ave Maria! Enfim, não selecionei um filme do ciclo. Cinéfilo que se preza tem motivos para ver todos…