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Luiz Carlos Merten

27 Agosto 2007 | 15h50

Há dois ou três anos, talvez mais, não lembro, vi em Cannes um filme sobre dois velhos – não caquéticos, evidentemente – que lá pelas tantas iam para a cama, e não para dormir. Para não constranger seus atores, o diretor colocou duas ou três câmeras no quarto, para captar de diferentes âbngulos o que eles iam fazer, e sqaiu de cena. Não acompanhou nem pelo monitor, preferindo descobrir a cena, postetriormente, como um espectador. Foi-se o tempo em que Joseph Von Sternberg queria controlar cada centímetro da tela e, por isso, só filmava em estúdio, submetendo todo mundo (atores e técnicos) ao seu despotismo. Hoje em dia, Abbas Kiarostami sonha com o filme sem diretor e Lars Von Trier outorga a um programa de computador o poder de enquadrar seu novo filme, O Grande Chefe, em cartaz na cidade. Isso está virando uma loucura. Nos anos 50, a crítica francesa cruiou a política dos autores para promover diretores que eram, na maioria, assalariados dos grandes estúdios de Hollywood. O propósito era mostrar como eles driblavam a ditadura dos estúdios para ser autores dos próprios filmes. Tout est dans la mise-en-scène, escrevia Michel Mourlet. Meio século mais tarde, os autores parecem querer contestar a própria autoria, entregando o filme, ou a filmagem, ao acaso – o que Rossellini já fazia, em parte, nos anos 50, mas só em parte, porque ninguém é doido de achar que alguém mais tivesse o controle da desdramatização do roteiro que ele praticava. Temo estar sendo simplificador, mas o cinema dá voltas e retorna sempre aos mitos fundadores. Antilusionismo dos irmãos Lumière, ilusionismo de Méliès. Quando fiz a entrevista recente com Greenaway e ele disse aquele monte de bobagens sobre o cinema não mais na era da reprodutibilidade, mas da internet, cheguei a postar alguma coisa sobre o cinema do futuro. Qual é? O digital, a mudança de suporte? Ou a aposta de Peter Jackson na saga de O Senhor dos Anéis, transformando a cultura erudita num espetáculo para as massas? Gostei de ter escrito aquele livro, Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, mas acho que, no cinema atual, seria preciso escrever um livro por ano para acompanhar as mudanças. O problema é que é difícil analisar os processos sem risco. Eles exigem um certo tempo, um certo afastamento para ser corretamente avaliados. Sinto que não estou sendo conclusivo. Só queria que vocês pensassem comigo. Mas, claro, o título acima é enganoso. Faz parte do espírito do post, até porque todas essas mudanças, na literatura como no audiovisual, têm origem no fluxo de consciência dos grandes narradores no começo do século 20 (Joyce, Proust e Virginia Woolf).