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Penn, para o Cássio

Luiz Carlos Merten

21 Julho 2009 | 16h08

Cássio Rodrigues pega carona no post sobre Ava Gardner, a ninfômana frígida de Hollywood, e me pede que comente ‘Caçada Humana’, que viu ontem no TCM, na programação dedicada a Marlon Brando que o canal vem levando simultaneamente com a outra, que homenageia Clint Eastwood. estou há dias para acrescentar um post, mais um, sobre Arthur Penn. Ele foi internado em estado grave nos EUA e, até onde sei, continua a UTI (ou coisa que o valha). Arthur Penn está velhinho. Nem é tanto a idade, embora 87 anos – nasceu em 1922 – já sejam bastante. Achei-o frágil quando o vi e lhe fiz algumas pérguntas no Festival de Berlim, quando ele foi homenageado (no ano passado). Alain resnais me passou essa mesma impressão de fragilidade quando o vi em Cannes há dois ou três anos, homenageado pela mostra Quinzena dos Realizadores’, da qual era padrinho. Este ano, para dizer a verdade, achei-o mais disposto, mesmo que a voz esteja meio trêmula (o raciocínio continua rápido, e brilhante). De volta a Arthur Penn, ele foi um, dos grandes – o maior? – daquela geraçãso que a Tv cedeu a Hollywood, no fim dos anos 50. Seu primeiro filme, o western ‘The Left-Handed Gun’, com Paul Newman, sobre Billy the Kid – no Brasil chamou-se ‘Um de Nós Morrerá’ –, era uma obra-prima, psicanalisando o mito. O próprio Penn ironizou, anos mais tarde, dizendo que, naquela época, fazia filmes comparando o revólver ao pênis. ‘O Milagre de Anne Sullivan’ me produziu verdadeiro choque quando o vi, no começo dos anos 60, mas só bem mais tarde entendi o que disse um crítico – acho que Sérgio Augusto –: Penn refaz à europeia o cinema clássico norte-americano, Griffith. Nunca revi, nem durante a homenagem que Berlim prestou ao diretor, ‘Mickey One’, com Warren Beatty e Alexandra Stewart, mas o próprio autor tem mais apreço por seu trabalho do que a maioria da crítica. O próprio Penn não gosta muito de ‘Caçada Humana’, mas neste caso talvez esteja certo o crítico Robin Wood. Penn nunca se confrormou com a remontagem feita pelo produtor Sam Spiegel, mas o espectador, que, ao contrário do diretor, não tem um ‘Caçada Humana’ ideal na cabeça, só pode reconhecer quão excepcional é o filme estrelado por Marlon Brando. ‘Bonnie & Clyde’, feito a seguir e intitulado no Brasil ‘Uma Rajada de Balas’, leva ao limite, para desmontar, a identificação do revólver com o falus. Warren Beatty faz um impotente que sublima na violência sua necessidade irrealizada de sexo. Faye Dunaway embarca na dele e, quando o herói finalmente consegue ter sua ereção, a vida de bandidos se volta contra ele e ambos tombam numa cilada da polícia. P… filme! Já tinha mais de 20 anos quando o vi, mas ‘Bonnie & Clyde’ surgiu na mesma leva ou muito próximo de outrtos filmes influentes no fim dos anos 60 – ‘Meu Ódio Será Sua Herança’, ‘Sem Destino’… O mundo estava mudando e o cinema documentava a mudança. Penn seguiu fazendo grandes filmes – ‘Um Lance no Escuro’ (Night Moves), com Gene Hackman, é o que melhor expressa o clima de desconfiança nos EUA do escândalo de Watergate. Encantei-me com ‘Amigos para Sempre’ e vi o terror de ‘A Morte no Inverno’ como metáfora das dificuldades que Penn, a partir de certo momento, começou a enfrentar. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, analisa seu pessimismo (e o silêncio…) como consequência do mal-estar que o cineasta flagra em filmes que mostram – a sociedade norte-americana só consegue resolver seus conflitos por meio da violência. É o tema, sempre, do cinema de Arthur Penn, mas mais do que tudo em ‘Caçada Humana’. Leiam no próximo post.