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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2010 | 11h21

Tenho algumas pendências para resolver antes de encerrar o ano. Marcelo Magalhães sente que fiquei frio com ele depois que se assumiu como protestante. Que é isso, cara? Não tem nada a ver e saudações luteranas para iniciar 2011. Nogelli me corrige e lembra que Thelma Shoonmaker, a viúva de Michael Powell, ganhou três Oscars em filmes de Martin Scorsese. Além de ‘Touro Indomável’ e ‘Os Infiltrados’, ganhou também por ‘O Aviador’. Confesso que achava que eram três e até fui conferir no guia de Leonard Maltin, mas procurei no verbete de ‘Gangues de Nova York’ e, claro, não havia encontrado. Acho ‘O Aviador’ tão ruim que tendo a ignorá-lo, mas por que mesmo Thelma ganhou por aquele filme? Pela cena do acidente aéreo, talvez? Gilberto Bonk Jr. lamenta que eu não goste de musicais – o que é verdade, em termos; gosto de alguns, não é preconceito contra o gênero, em geral -, mas pede que fale de ‘Holiday Inn’, de Mark Sandrich, com Bing Crosby e Fred Astaire, de 1942. No Brasil, chamou-se ‘Duas Semanas de Prazer’ e conta justamente a história da criação desse hotel que só funciona no Natal. Mark Sandrich! Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, diz que seu nome está vinculado à passagem da dupla clássica Fred Astaire/Ginger Rogers pela RKO. “O Picolino’ é bem legal e vi com prazer ‘A Alegre Divorciada’ na TV, mas Tulard não exagera ao dizer que restava a Sandrich, nesses filmes, passar para o lado de lá da câmera e dar algumas dicas ao operador para que ele enquadrasse bem as evoluções de Fred e Ginger. As equipes eram tão perfeitas, a dupla tão carismática! A história de ‘Duas Semanas de Prazer’ é nula, ou quase, mas ‘White Christmas’, de Irving Berlin, virou a canção clássica de Natal e ganhou o Oscar da categoria. Fred Astaire tinha uma voz de veludo e cantava ‘intimista’, antecipando João Gilberto, mas Bing Crosby era foda, me desculpem a expressão. Foi a voz que mudou tudo e influenciou todo mundo, incluindo Sinatra. Não foi por acaso que, em ‘Adorável Pecadora’, de George Cukor, o milionário Yves Montand, querendo impressionar a corista Marilyn Monroe, toma aulas com os melhores – de dança com Gene Kelly, de humor com Milton Berle e de canto com quem? Bing Crosby, claro. E ainda tem o Mauro Brider, que me informa que a Versátil lança ‘Tarde Demais’ em janeiro e pergunta que lembrança tenho do melodrama que William Wyler adaptou do romance de Henry James, anos antes que o escritor virasse a Bíblia da dupla Merchant/Ivory. Para dizer a verdade, ‘The Heiress’ baseia-se numa peça adaptada do livro e os próprios autores – lembro-me que formavam um casal – fizeram a transposição. ‘A Herdeira’, título original, é de 1949, e fecha a década que Wyler começara tão bem com os melodramas estrelados por Bette Davis. ‘Jezebel’ ainda é dos anos 1930 (1938), mas ‘A Carta’ e ‘Pérfida’ são de 1940 e 41. Em todos, encontram-se as melhores qualidades do ‘estilista sem estilo’, do cineasta que se autodefinia como sendo da velha vaga. Sóbrios, ascéticos, esmerados, elegantemente teatrais, assim Sérgio Augusto definia os melodramas de Wyler, que sempre se abrigou no psicologismo e nos roteiros sólidos, mas cuja grande arte repousa basicamente na fotografia, e na profundidade de campo, qaue ele já praticava (com Greg Tolland) bem antes de Orson Welles (e de ‘Cidadão Kane’). Teremos tempo de falar de ‘Tarde Demais’ e das quase 40 vezes (37!) que o diretor fez Olivia De Havilland descer uma escadaria, em busca de um efeito dramástico que não estava conseguindo. ‘Tarde Demais’ é sobre herdeira sem graça que se deixa envolver pelo caçador de dotes Montgomery Clift – antecipando o herói trágico de ‘Um Lugar ao Sol’, de outro perfeccionista da velha Hollywood, George Stevens. Olivia ganhou o Oscar e é soberana ao som da trilha de Aaron Copeland, também vencedora do Oscar, especialmente na cena famosa – ‘Too late’ – que deu título ao filme, no Brasil. Vai ser um grande começo de ano na Versátil. E viva 2011, que já está pintando.

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