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Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2010 | 09h49

Falhei com vocês, ontem. Ou melhor, falhei comigo. Tive um dia agitado e saí correndo, no fim da tarde, para ver ‘Meu Malvado Favorito’, que achei bem divertido, embora não se compare às melhores animações em cartaz – ‘Toy Story 3’ e ‘Shrek para Sempre’, essa última injustiçada. Na pressa, terminei esquecendo de acrescentar o post que vocês vão ler agora, com atraso. Houve ontem um evento bem interessante na Livraria da Vila, na Vila Madalena. O lançamento do livro ‘Sobressalto’, de Kenneth Cook, foi precedido ou sucedido, não sei, pela exibição de ‘Pelos Caminhos do Inferno’, que é como se chama – no Brasil – a adaptação feita por Ted Kotcheff nos anos 1970. Não conheço o livro, apenas sua fama, mas fui sempre defensor, desde a primeira hora, do filme sobre professor que mergulha num verdadeiro pesadelo no ‘outback’, o semi-deserto australiano. Logo na abertura de ‘Austrália’, o belo épico de Baz Luhrmann que revi na TV paga, na semana passada – é impressionante como o filme vai à fonte de Eisenstein e se constrói por meio de montagens de atrações –, tem aquela cena em que a aristocrata Nicole Kidman chega à sua nova terra e o aventureiro Hugh Jackman a leva para casa em seu carro caindo aos pedaços. No caminho, Nicole olha, enlevada, para a paisagem e vê passarem – saltitando – os cangurus. Bang-bang. O caçador montado na garupa abate os animais. O efeito é cômico, para mostrar a barbárie em que a civilizada Nicole está mergulhando e logo em seguida tem a cena do bar, no qual o aborígene está proibido de entrar, algo talvez menos chocante do que a matança de cangurus, mas igualmente indefensável. Agora imaginem o barbarismo tratado a sério. O professor, interpretado por Gary Bond – ator que desapareceu –, é um homem sensível cuja personalidade se desintegra quando ele toma umas geladas com os brucutus do ‘outback’ e vai todo mundo, alegremente, matar cangurus. A cena é de uma brutalidade espantosa e eu fiquei estarrecido quando a vi pela primeira vez, em 1972 ou 73. Lembro-me que estava na ‘Folha da Manhã’, em Porto Alegre, e escrevi um requisitório contra a violência retratada no filme. Naquela época, em plena ditadura militar, todos os textos incorporavam um subtexto e eu sempre dava um jeito de fazer pontes com a violência ao redor. ‘Pelos Caminhos do Inferno’ virou cult e eu confesso que sempre tive um carinho pelo diretor Kotcheff. Já havia gostado de ‘Leilão de Almas’, que ele fez em 1965, com Laurence Harvey e Jean Simmons, dando continuidade a ‘Almas em Leilão’, de Jack Clayton, com Harvey e Simone Signoret (que ganhou o Oscar pelo papel). Depois, ele fez ‘Programado para Matar’, que defendi, antes que o personagem de Rambo fosse transformado por Sylvester Stallone em emblema da era Ronald Reagan. O soldado do Vietnã, de volta para casa, ingressa num pesadelo como o do professor de ‘Outback’, caçado pelo xerife da pequena cidade – e ele reage usando as técnicas de guerrilha que aprendeu no Sudeste Asiático. Outro dia falei do filme aqui no blog e alguém me disse que reviu e ele não resiste, mas em 1982 ou 83 tomei um choque naquela cena em que Stallone costura o próprio corte. Que que era aquilo? Na sequência, Kotcheff voltou ao Vietnã com ‘Uncommon Valor’, que aqui se chamou ‘De Volta para o Inferno’. Um ex-oficial liderava expedição para libertar prisioneiros norte-americanos dos vietcongues. O final era de cortar o fôlego e foi, tenho certeza, como reação a Kotcheff que Stallone e o diretor George Pan Cosmatos voltaram ao Vietnã em ‘Rambo 2 – A Missão’ para vencer, na ficção, a guerra que os EUA haviam perdido na realidade. Ou eu me engano muito ou ‘Fun with Dick and Jane’, Adivionhe Quem Vem para Roubar?, com a ‘contestadora’ Jane Fonda e George Segal, era bem divertido – e muito melhor do que o remake com Jim Carrey e Tea Leone. Onde foi parar Ted Kotcheff? Em algum momento ele deve ter perdido o rumo ou era crítico demais para os padrões do cinemão (sem a contrapartida do beneplácito da crítica, que raramente teve). Esqueci-me de ‘Pelos Caminhos do Inferno’. Devia ter ido rever o cult de Kotcheff e não o ‘Malvado’, que, afinal, segue em cartaz.