As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pela Janela, Ferdinando. São tantas emoções que eu, como na canção, vivi!

Luiz Carlos Merten

11 Janeiro 2018 | 00h06

Revi pela manhã o Pela Janela e confesso que gostei ainda mais do filme de Caroline Leone. Magali Biff, maravilhosa, e a água que atravessa o relato tem, como se diz, camadas, não apenas na cena das cataratas, mas está ali, em diversos momentos, para lubrificar a engrenagem travada da vida da protagonista, Rosália. Entrevistei à tarde a diretora, a atriz e também o ator, Cacá Amaral. É um filme de pequenos gestos, pequenas ações, com um toque de (Yasujiro) Ozu, sem a câmera baixa – e a Carol informou que nos curtas dela tem até isso, o ângulo baixo. Ozu! Acreditem. Há muito do mestre japonês no olhar de Caroline Leone. Ela ama, nós amamos Ozu. No intervalo – entre o filme e as entrevistas -, fui ver O Touro Ferdinando. Gostei muito de Viva, mas fiquei com aquela a sensação de que não é uma animação para crianças, e sim para adultos. Cheguei a escrever isso aqui no blog, e fiquei pensando – por que teria de ser para crianças? Foi a indústria do entretenimento, a Disney, que operou esse conceito no imaginário da gente, mas mesmo as animações do velho Walt – os anões, a madrasta e o caçador de Branca de Neve, a morte da mãe de Bambi, etc – tinham elementos adultos muito fortes. Viva trabalha a ideia da morte de forma original e criativa, e a perda também se faz presente em Ferdinando. A morte do pai do tourinho da flor, a separação da menina. A animação de Carlos Saldanha trabalha esses elementos de forma mais simples, não sei se exatamente ‘mais adequada’ para crianças menores, mas com certeza parece mais ‘infantil’, embora não veja isso como demérito, pois tem momentos de grande sofisticação – o tempo perdido e reencontrado de Proust, que também havia em Ratatouille, e a noção da ‘diferença’. Ferdinando se faz aceito como é, e Valente, que acha que sua vida não tem mais sentido depois que o corno é destroçado – o que metaforicamente equivaleria a uma castração -, descobre que existem, sim, possibilidades. Mal comparando, é a descoberta que a personagem de Magali Biff também faz em Pela Janela. Não me entendam mal, porque numa animação é possível se identificar com o filhote de leão que vira o rei da savana, ou com o rato que sonha ser chef da mesma maneira que com humanos num filme live action, e lamento muito por quem não consegue isso. A animação não é outra coisa senão essa ferramenta que exagera nas tintas, e recorre a diferentes manifestações de alteridade para nos confrontar com nosso mundo, e nós mesmos. Mas o filme da Carol Leone é especial porque é raro, no cinema brasileiro e até mundial, um filme que dê tanto valor ao trabalho para definir/construir os personagens. Rosália é trabalhadora dedicada, e quando termina o expediente na fábrica ela tem a casa, o irmão para cuidar. E quando perde o emprego, ela não abre mão do trabalho manual, mesmo não remunerado – segue lavando roupa, estendendo a cama (até no hotel!). Uma operária! Nesse sentido, Pela Janela propõe um outro viés, mais ‘proletário’, para a questão feminista de Como Nossos Pais, por exemplo. Laís Bodanzky reflete sobre uma faixa mais escolarizada/intelectualizada. Carol toca nos humildes, sem demagogia. É pena que o júri de Gramado, que não atribuiu nada ao filme, não tenha percebido isso, porque faz uma diferença enorme e, no Brasil atual, equivaleria a uma tomada (necessária) de posição. Gostei muito de ter revisto Pela Janela, e recomendo aos coleguinhas que façam o mesmo. Não havia ninguém na cabine da turma de Gramado. Gente esquisita – viram uma vez e acham que basta. Eu já estou pensando quando vou ver o Pela Janela pela terceira vez. A cena da catarata é antológica. Eu, que vim de lá e vivenciei a experiência no fim de semana, posso garantir que o filme é muito acurado nesse sentido. E, aliás, se eu voltei a Foz, foi por causa do Pela Janela. O filme foi tão impressionante que eu quis ver de novo – a força da água!