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Luiz Carlos Merten

10 Março 2007 | 21h15

Quem foi ontem ao Noitão do HSBC já sabe – o filme surpresa foi Peggy Sue – Seu Passado a Espera, de Francis Ford Coppola, com Kathleen Turner e Nicolas Cage. Cito os dois, que são os principais, mas a surpresa, para quem foi, deve ter sido descobrir que a jovem Sofia Coppola, ainda garota, fazia um pequeno papel – e o primeiro filme da noite havia sido Maria Antonieta, que ela dirigiu. Coppola fez Peggy Sue em 1984. No ano anterior, dirigira Vidas sem Rumo e O Selvagem da Motocicleta. O primeiro foi uma obra de encomenda, como Peggy Sue. Há 23 anos, Coppola assumiu que estava endividado, sua Zoetrope ameaçada de falência e ele fez estes filmes para faturar. Os críticos dizem que Coppola asntecipou de Volta para o Futuro, fazendo a versão adulta da fantasia de Robert Zemeckis, mas talvez tenha sido o contrário – Zemeckis que infantilizou Peggy Sue. Acho a polêmica meio tola, porque adoro a série do Zemeckis, que vai voltar, inteira, numa maratona na rede Telecine, no dia 17. De Volta para o Futuro é divertido e não é tão alienado assim, mero entretenimento para jovens. Acho muito interessante quando, no passado, McFly (Michael J. Fox) encontra a futura mãe e ela fica atraída por ele. Como pré-antiedipianismo, acho o máximo (e muito esperto). Em Peggy Sue, Kathleen Turner – esta mulher foi uma deusa – viaja ao passado para resolver os problemas de sua vida de esposa e mãe insatisfeita. Me lembro que, na época, alguns críticos de esquerda reclamavam do Coppola – ela deveria se preocupar menos consigo e avisar Martin Luther King ou Robert Kennedy que seriam assassinados. Isso, sim, seria uma fantasia sem tamanho. Nem o cinema consegue mudar tanto a realidade. Gosto do filme, acho bem psicológico, com poucos efeitos (o maior é aquela cena do espelho). E fico nostálgico. Coppola fez tanta coisa genial. Sua trilogia do Chefão, A Conversação, Appocalypse Now. Seus últimos filmes foram, para mim pelo menos, decepcionantes. E ele parou. Hoje prefere ficar fabricando seus vinhos. Deixou o cinema para a Sofia. É uma coisa que me intriga. Como e por que Coppola desistiu do cinema? No que, ou como, fabricar vinhos é tão melhor que fazer filmes? Isso é um mistério para mim. Se quiserem me elucidar, agradeço.