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Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2007 | 14h48

Estou com preguiça de voltar atrás, mas me lembrei agora que, quando acrescentei aquele post sobre a Silver Screen, alguém (quem?) comentou que o selo estava lançando (ou ia lançar?) ‘A Tortura do Medo’ (Peeping Tom), de Michael Powell. Acho que é o filme mais famoso que ele dirigiu sozinho e originou um culto muito forte a Powell, bem antes que Martin Scorsese virasse o oficiante da celebração do diretor inglês. Lembro-me que, em Porto Alegre, por volta de 1960, ainda estava no Colégio Júlio de Castilhos e havia um mural, no qual escrevia um cara chamado Valdir Enor Koch. Nunca falei com ele, mas com certeza o Koch, que escrevia naquele espaço alternativo, foi muito importante em meus verdes anos. Não concordava com tudo o que ele escrevia – o cara desancou ‘Psicose’ -, mas aquele espaço terminou me estimulando a, algum tempo depois, usar outro espaço alternativo – na Faculdade de Arquitetura da UFRGS – para também escrever meus primeiros textos sobre cinema (e o primeiro foi sobre ‘Um Clarim ao Longe’, de Raoul Walsh). Voltando a Valdir Enor Koch, acho que ele foi a primeira pessoa que eu vi elogiar Michael Powell. Não sou o maior conhecedor da obra deste cineasta, mas sei que Bertrand Tavernier também é louco por ele e sua coleção ‘Actes du Sud’ até editou um volume sobre Powell, cobrindo sua produção conjunta com Emmeric Pressburger e os filmes que fez sozinho. Engraçado, mas dele me lembro de alguns filmes, ou de partes de alguns filmes – ‘O Ladrão de Bagdá’, ‘Coronel Blimp’, ‘Narciso Negro’, ‘Sapatinhos Vermelhos’, ‘Os Contos de Hoffman’. São todos visualmente muito bonitos. Não faço uma idéia muito clara do estilo nem das preocupações de Michael Powell, mas me sensibiliza o que dele disse acho que o crítico Raymond Lefèvre: “O cinema é uma arte que pode atingir o coração e o espírito por meio de estímulos puramente físicos. Mas é raro que isso ocorra e Michael Powell é um dos cineastas que atingiram este milagre.” (Estou citando de memória – Lefèvre disse mais ou menos isso, mas não são as frases literais.) De volta a ‘Peeping Tom’, o filme conta a história deste homem que, quando garoto, foi cobaia nas experiências do próprio pai, que investigava a reação humana ao medo. (O incrível Kulk também virou monstro por causa das experiências do pai, mas esta é outra história). Com a mente deformada, o herói vira um voyeur que mata mulheres com uma câmera punhal que as trespassa, para que ele possa captar a expressão de medo no rosto das vítimas. Karl Böhm era o ator, ele que havia sido o imperador da série ‘Sissi’, com Romy Schneider. Foi seu grande ‘adulto’ no cinema. Confesso que fiquei com vontade de rever ‘A Tortura do Medo’. Será tão bom quanto a memória registra? A se julgar pelo que dizem Scorsese e Tavernier – e pelo que dizia Valdir Enor Koch -, sim.

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