Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Pedro, o Negro’

Cultura

Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2011 | 16h45

Não tenho feito outra coisa se não viajar nas lembranças desde que recebi ontem os novos DVDs da Cult Classics. ‘Meu Marido de Batom’, de Bertrand  Blier, e ‘Pedro, o Negro’, de Milos Forman. O cinema checo! Me vieram todos aqueles filmes a que, jovem, assistia em Porto Alegre. Nouvelle vague, cinema soviético, neo-realismo italiano, expressionismo alemão. E, nos cinemas, o novo cinema polonês, o checo, o alemão. Não sei se consigo colocar em palavras, mas, por mais forte que fosse a impressão que me produziam os poloneses, Andrzej Wajda era, sempre foi, muito pesado. O cinema checo, pelo contrário, parecia tão leve. Os filmes eram mais bonitos, visualmente. Retratavam a juventude com um frescor verdadeiramente inebriante. ‘Pedro, o Negro’ foi o segundo longa de Forman, em 1963. Vieram depois ‘Os Amores de Uma Loira’, ‘O Baile dos Bombeiros’. Ao mostrar sua ‘Loira’ em Cannes, Forman disse alguma coisa como gostar de retratar a juventude porque os homens e mulheres de sua geração, dos 30 aos 50 anos, só pensavam em suas carreiras. Os jovens eram contestadores. Pedro arranja um emprego para agradar ao pai, mas ele não gosta do que faz. Entre outras coisas, Petr, ou Piotr, tem de espiar os clientes da mercearia, teoricamente paras impedi-los de roubar, mas Forman estava falando, metaforicamente, da vigilância do regime comunista que, em 1968, esmagou, com a força de seus tanques, a primavera de Praga. Pedro e os pais, a namorada, o patrão, o mundo ao redor. Forman havia sido assistente de Ivo Novak. Como se chamava aquele filme domn Ivo, ‘Desafio à Vida’? Sob o impulso da nouvelle vague, Forman estuda os costumes, as palavras, os gestos, os sorrisos dos homens e mulheres. Como ele dizia, não era preciso estilizar a superfície das coisas para penetrar muito além, e muito fundo, nessa superfície. Fugindo dos tanques, o diretor foi para Paris em 68. Ligou-se a Jean-Claude Carrière e escreveram o que virou ‘Taking Of’, Busca Insaciável, quando Forman foi para os EUA. Pais fundam associação para procurar os filhos que desapareceranm. Numa cena, eles fumam maconha. Forman subverte as próprias regras e propõe o retrato – amargo? irônico? – dos adultos face à juventude perdida. Quem diria que Forman ia se adaptar tão bem em Hollywood? ‘Um Estranho no Ninho’, ‘Na Época do Ragtime’, ‘Valmont’, ‘Larry Flint’. Eu amo Milos Forman, seu humor, sua liberdade, tanto a ideológica quanto a de tom. Ele foi sempre uma fonte inesgotável de invenção formal (e visual). Seu filme mais recente, ‘Os Fantasmas de Goya’, me deixou chapado por sua virulência crítica e vigor narrativo. E tudo começou lá atrás, em 1963, com ‘O Concurso’, que já apontava o caminho. A expectativa dos jovens, face ao mundo adulto. No mesmo ano, ‘Pedro, o Negro’. É maravilhoso. Com Forman me vêm todos os outros grandes checos – Jiri Menzel, Kadar e Klos, Vojcech Jasny, Karel Kachyna, Karel Zeman, Vera Chytilova. A juventude de Forman, o feminismo de Vera – ‘As Pequenas Margaridas’. Estou em casa, preciso parar para sair para uma entrevista. Caso contrário, fico aqui, entre trens estreitamente vigiados e aquele gato, naquele dia.