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Cultura » Peça de museu?

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Luiz Carlos Merten

05 Março 2010 | 10h14

Rossellini não gostava dos atores. Pierre Arditi, que foi seu Blaise Pascal, diz que não é que Rossellini desprezasse os atores, mas ele os tratava como ‘chaises’ (cadeiras). Será por isso que Michel Gondry fez seu episódio de ‘Tokyo’? Descobri essa declaração de Arditi depois de falar com Gondry, senão lhe teria perguntado, eliminando a dúvida. Rossellini dublava seus atores italianos, retirando-lhes a voz, e era autoritário no set. Hélène Frappat, que escreveu um livro sobre ele , na coleção Cahiers du Cinéma/Le Monde, diz que era como um marionetista comandando seus bonecos de madeira. As exceções foram duas atrizes, a Magnani e a Bergman. Rossellini havia descoberto com a primeira a importância do rosto, e da voz, mas a Magnani, por sua exuberância, era levada a superrepresentar. Paradoxalmente, Roberto descobriu que a estrela hollywoodiana, Bergman, podia ser mais sóbria. Ele trocou não apenas de atriz, mas também de mulher. Uniu-se à Bergman por um punhado de anos. Fizeram filhos e filmes. Entre os primeiros, Isabella Rossellini. Os segundos, todos clássicos (de uma certa forma). É verdade, pelo registro histórico, que Alfred Hitchcock, antes de Rossellini, já perscrutara, com sua câmera, o rosto da Bergman (especialmente em ‘Interlúdio’/Notorious, de 1946.) Magnani fala muito em ‘A Voz Humana’, mas, em geral, para Rossellini, Bergman e ela eram corpos em movimento. Nada de falas. ‘Você só me manda caminhar’, protestava Ingrid em ‘Stromboli’. Ele retrucava que ela falava demais nos filmes de Hollywood e, quando caminhava, era mais fácil seguí-la com a câmera. ‘É o personagem que me interessa e o personagem deveria viver num certo contexto que eu queria descobrir com ela’, explicouric o diretor  mais tarde. Éric Rohmer foi dos primeiros a perceber que Bergman introduzia um elemento novo no cinema de Rossellini. Em 1952, em ‘Cahiers’, ele escreveu um texto laudatório, ‘O Gênio do Cristianismo’, sobre ‘Europa 51’, que a Versátil está lançando, ‘Francisco, Arauto de Deus’, que já lançou, e ‘O Milagre’. São as novas pedras dessa catedral que a cristandade não deixa de construir à glória de um Deus que não está morto em seu coração, escreveu Rohmer. Bonito, não? ‘O Milagre’, uma das duas histórias de ‘L’Amore’, que marca a despedida da Magnani, é um filme católico anticlerical. Começa em seguida a parceria com a Bergman e, dentro dela, Rossellini constrói sua trilogia da solidão – ‘Stromboli’, ‘Europa 51’ e ‘Viagem na Itália’. O exílio da estrangeira na terra hostil de Deus (‘Stromboli1’), a morte do filho como provação para a ascese de Irene (‘Europa 51’) e a crise do casamento (‘Viagem na Itália’). Arte e vida se completam e alimentam, como sempre, no cinema de Rossellini. Um filme não é só um filme. Quando eles rompem, em ‘O Medo’ (Angst), de 1954 – após ‘Joana na Fogueira’, quando Rossellini faz Ingrid voltar ao papel de Joana d’Arc, que já criara para Victor Fleming, nos EUA –, o filme reflete a tortura a que o diretor submete sua atriz e a transforma em metáfora da dor inerente às rupturas violentas. Mais do que estudos sobre a solidão, ou da busca da superação, os filmes de Rossellini com a Bergman marcam a passagem do realismo quase documentário das obras do imediato pós-guerra para o intimismo mais radical, como se o diretor estivesse querendo aproximar o público da al ma de seus personagens. Essa fórmula ‘rosselliniana’ atinge a perfeição num filme construído sem roteiro, sob o signo do precário – ‘Viagem na Itália’ parte do exterior, a visão de um país, de uma região da Itália, para o interior dessas duas almas (os personagens de Ingrid e George Sanders). Já contei aqui como Rossellini me perturba. Não sou rosselliniano de carteirinha, nunca fui, mas também não consigo aceitar com facilidade, como propõe Sérgio Augusto, que ele se tenha transformado numa peça de museu, uma curiosidade de cinemateca e pouco mais, com duas ou três exceções de filmes que resistiram a tudo, até a tendência do próprio Rossellini de transformar sua câmera num microscópio e tentar observar as pessoas (e o mundo) como um etnógrafo.