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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2007 | 13h31

Já que enfiei um pé na jaca no post anterior, quero anunciar que vou enfiar o segundo no post que você está começando a ler. Vocês têm me cobrado aqui no blog a indicação dos filmes raros desta Mostra. Deve haver, mas confesso que tem só uns dois ou três que me atrevo a indicar – ‘Cochochi’, ‘El Otro’ –, filmes de que gostei muito. A verdade é que a Mostra se caracterizou, nas origens, por trazer filmes raros para o mercado brasileiro. Hoje, eles estão cada vez mais diluídos numa seleção de grandes nomes em pré-estréia. A própria raridade de ontem virou a unanimidade de hoje – ‘Vocês, os Mortos’, de Roy Andersson, o diretor de ‘Canções do 2º Andar’, que também exibia o mesmo tipo de surrealismo light que, no limite, termina por me parecer inofensivo. (Um parêntese – Jos Stelling, outra descoberta histórica da Mostra, também tinha esse perfil, e sumiu, o cara. Fui procurar na internet e não achei nenhuma referência ao fato de estar vivo, ou morto.) O que temos hoje é uma vitrine para filmes que, daqui a pouco, estarão estourando no Arteplex – de Leon Cakoff e Adhemar Oliveira –, devidamente referendados pela aura de respeitabilidade da Mostra em relação aos filmes de ‘qualidade’, ou de arte. Durante sei lá quantos anos – uns 20, já que a Mostra está na 31ª edição – o maior evento de cinema em São Paulo era o único deste porte realizado no País. Há dez anos, existe o Festival do Rio, que também abre esta porta para o cinema mundial – e está trazendo cada vez mais raridades, em seções cults (midnight movies, seleção GLS, Fronteiras etc[TEXTO]), que não encontro na Mostra, um pouco porque o público daqui é diferente do de lá, menos festivo, alguma coisa assim. O Festival do Rio tem um diferencial, e é a Première Brasil, uma de suas duas mostras competitivas – a outra é a Première Latina –, à qual se soma a discussão sobre mercado. Lembro que quando falei das atrações nos seminários do Festival do Rio, aqui no blog, houve gente que reclamou, dizendo que queria saber de arte, dos filmes, não de comércio. Mas é o comércio, o mercado, que determina o que você vai ficar vendo o ano todo, fora dessas duas semanas de férias de blockbusters no Rio e, depois, aqui em São Paulo. (De férias, em termos – há muito blockbuster pegando carona nas duas programações.) Tenho ido regularmente ao Festival do Rio nos últimos anos e vejo lá o que perdi em Berlim e Cannes, dois festivais aos quais vou sempre. Antes, porque a data é muito próxima, o Festival do Rio não trazia muita coisa de Veneza e este era um diferencial importante da Mostra de São Paulo. Agora, não é mais. É verdade que não é todo mundo que vai ao Rio. Eu vou e, depois, não encontro muita novidade por aqui. E a questão nem é essa. É infantil ficar comparando os dois eventos, ou tentando apontar qual é o maior. A questão é o impacto desses festivais sobre o mercado. Cakoff abriu um caminho importante. Historicamente, ele tem um mérito enorme. Hoje, esse impacto tem de ser dividido com o Festival do Rio. Será irresponsabilidade minha dizer que um evento tão importante da cidade está necessitando de uma sacudida em seu formato? Não me arrisco nem a dar sugestões. Mas se Cakoff pode puxar as orelhas da crítica, a crítica também pode dizer duas ou três coisas aos organizadores de festivais. E criticar não é destruir. É por em crise, condição essencial para transformar (e crescer).