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Luiz Carlos Merten

20 Novembro 2007 | 15h48

Fábio Negro levanta uma questão interessante, para a qual não vou oferecer solução, apenas novas interrogações. Ele viu ‘O Céu Mandou Alguém’ na TV e pergunta se o clássico de Ford, sobre esses três caras que acham um bebê no deserto e o carregam de volta à civilização, é um road movie? Acho curiosa a forma como os gêneros se misturam na história de Hollywood e aparecem melodramas noir, por exemplo (caso do implacável ‘Amar Foi Minha Ruína’, com Gene Tierney). ‘O Céu Mandou Alguém’ não deixa de ser um filme de estrada, mas a verdade é que boa parte do cinema de western também caberia na classificação ‘on the road’. Já que o Fábio citou John Ford, não custa lembrar que ele é chamado de Homero do western, por suas odisséias de grupos – na obra fordiana, somente ‘Rastros de Ódio’ narra a tragédia de um individualista –, e o conceito de narrativa de estrada, neste sentido, pode recuar até Ulisses, no seu retorno de Tróia, em busca do porto seguro de Ítaca. Falei no post anterior sobre ‘Os Profissionais’, de Richard Brooks. Seria, ou é, um road movie, como ‘No Tempo das Diligências’ (Stagecoach), também de John Ford; ‘Nas Garras da Ambição’, de Raoul Walsh; ‘Os Cowboys’, de Mark Rydell; ‘Rio Vermelho’, de Howard Hawks, e ‘Hatari!’, que pode ser chamado de western africano do próprio Hawks. Admitido o western, tenho a impressão de que a lista fica interminável, mas tenho para mim que o conceito de filme (e literatura) de estrada se aplica a um certo tipo de produção mais contemporânea, que começa com ‘De Vagões e Vagabundos’, de Jack London, do qual parece ter derivado um dos melhores filmes de Robert Aldrich – ‘O Imperador do Norte’, com um sensacional duelo de machados entre Lee Marvin e Ernest Borgnine no alto do trem –, e prossegue com o clássico ‘On the Road’, de Jack Kerouac, que virou marco da beat generation e abriu caminho para ‘Sem Destino’, de Dennis Hopper, e ‘Corrida contra o Destino’, de Richard C. Sarafian (que foi o modelo para ‘À Prova de Morte’, de Quentin Tarantino). É um longo caminho que atravessa décadas de cinema (e contracultura) até chegar aos filmes de Wenders, Walter Salles e Sean Penn (‘Into the Wild’). A propósito, leiam o texto de hoje de Walter Salles no ‘Caderno 2’. Waltinho propõe um manual de instrução para esse gênero de filmes no qual se inscrevem não apenas ‘Diários de Motocicleta’, mas também ‘A Grande Arte’, ‘Central do Brasil’ e ‘Terra Estrangeira’, valendo lembrar que o diretor prepara um documentário sobre Jack Kerouac como ponto de partida para a sua adaptação de ‘Pé na Estrada’, que é como ‘On the Road’ se chama no Brasil

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