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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2008 | 09h21

Grandes diretores ocidentais tentaram decifrar o mistério da India. Jean Renoir fez ‘O Rio Sagrado’ e talvez tenha dado oriogem ao moderno cinema indiano, pelo simples fato de haver contratado um jovem assistente que fez história, um certo Satyajit Ray. O neo-realista Roberto Rossellini fez ‘Índia’ e o filme fez a cabeça de um discípulo francês (e aplicado) do mestre, aquele François Truffaut que amava Rossellini pela maneira como ele integrava tudo num mesmo movimento, a arte e a vida. Truffaut sempre seguiu uma regra de Rossellini, fazendo filmes com as atrizes que queria levar para a cama. Rossellini, você deve lembrar-se, foi à Índia para fazer seu filme-rio sobre a cultura indiana e voltou casado com Sonali Das Gupta, como antes vivera grndes histórias de amor com Anna Magnani, Ingrid Bergman etc. ‘O Rio Sagrado’ e ‘Índia’ fazem parte da história, mas acho que foi David Lean quem nos decifrou a Índia e as inconciliáveis diferenças entre Oriente e Ocidente. É curioso, nunca havia notado, que o crédito inicial do filme é – Joseph Heyman (e outros produtores) present The David Lean Film of E.M. Forster’s ‘A Passage to Índia’. Não me lembro de outra autoria registrada desta maneira. O filme conta a história desta inglesa romântica e sugestionável, Adela Quested, que acompanha Mrs. Moore numa viagem à Índia, onde o filho da velha dama é um funcionário qualificado. Adela vai em busca de alguma coisa que nem ela sabe ao certo o que é. Seu nome indica isso – Quested (de Quest). O que ela busca está determinado antes mesmo que saia da Inglaterra, antes mesmo que pague a passagem, quando Adela olha para aquela foto e o agente lhe diz que são as grutas de Marabar, próximo a Chandrapore, onde ela vai ficar. As grutas não têm nada demais – uma série de cavernas escuras, famosas somente pelo eco que produzem. Mas elas vão ser o abismo interior, a parte escura da mente, em que Adela vai se perder, por um momento, saindo do seu interior com a acusação de que um nativo, o dr. Aziz, tentou estuprá-la. O caso vai a julgamento, num momento em que é forte a pressão para que a Índia se torne independente do império britânico. A discussão sobre amor e sexo que Mrs. Moore considera tola – em nenhum momento ela acredita no estupro de Adela – é veículo para que Lean fale sobre a grande História e as revoluções. Antes disso, Adela se perde a floresta e vai parar naquele templo cujas inscrições eróticas a perturbam tanto que ela foge. Quando ela encontra o pseudo noivo, ele pergunta o que houve. Ela diz ‘nada’, como poderia ter dito ‘tudo’. A cena é magnífica – escrita, dirigida e montada por Lean – e se completa com outras duas, quando Mrs. Moore diz que a Índia, metaforizada nas cavernas, nos obriga a olhar para dentro de nós mesmos, e o professor Godbole, o brâmane interpretado por Alec Guiness, diz que tudo é carma, que tudo está escrito e nada do que fizermos vai mudar nosso destino. Por conta disso, Fielding (James Fox) se exspera por sua aparente passividade face ao que está ocorrendo com Aziz. Mas, se é assim, qual é o papel do homem, qual é o nosso papel no mundo? Como, por que e para que viver com uma consciência, se tudo já está previamente determinado? Bom, aí entra o mistério do filme. Fielding é o próprio David Lean, cético e lúcido, fazendo a ponte do melhor dos dois mundos e sabendo que a consciência nos impele a lutar. A chave é a própria Adela, que usa de toda sua coragem, assume que foi tudo um engano e desmonta a farsa em que o governo colonial a esta altura já transformou o processo contra Aziz. Os 15 ou 20 minutos finais são preciosos. Adela, no tribunal, olha para o vidro da clarabóia, sobre sua cabeça, e vê as gotas de chuva que formam uma pasta na poeira. Aziz vomita sua cólera sobre Fideling, achando que ele se uniu à sua inimiga – Adela -, mas no final é a ela, à sua coragem que a transforma numa pária entre os ingleses, que ele deve sua liberdade. Nunca li o livro de Forster, autor de ‘Maurice’ e ‘Uma Janela para o Amor’ – ambos filmados por James Ivory -, e não sei se teria coragem de lê-lo agora, de tal forma a adaptação de Lean me pareceu perfeita. O fecho, que eu não sei se é do livro, o sutil detalhe que faz com que Fielding se case para perpetuar o nome, tendo filhos (Aziz não consegue entender, no começo, como ele não se preocupa com isso), me pareceu um toque de gênio. Fielding não se casa com Adela e sim, com Stella, a filha de Mrs. Moore, que Lean, num devaneio poético, fez interpretar por sua sexa ou sétima mulher, Sandra Hotz. Ela não é particularmente bonita nem expressiva, mas aquilo me produziu uma emoção incrível, a mesma que sinto quando vejo vejo Coppola colocar a filha – Sofia – como vítima dos jogos da Máfia no desfecho de ‘O Poderoso Chefão 3’. Lean tinha 76 anos quando fez ‘Passagem para a Índia’. Ele morreu em 1991, aos 83, sem concretizar sua sonhada adaptação de ‘Nostromo’, de Joseph Conrad. Sempre tive o maior respeito e admiração por Lean (mesmo não gostando daquele arco-íris que ele, equivocadamente, desenhou sobre o futuro da URSS, em ‘Doutor Jivago’). Sempre achei que ‘Lawrence da Arábia’ era sua obra-prima. Não estou mais tão certo. ‘Lawrence’ tem cenas mais grandiosas (e belas), mas ‘Passagem para a Índia é tudo. Paulo Francis tinha razão.