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Luiz Carlos Merten

21 Março 2008 | 11h16

Acrescentei meus primeiros posts, hoje de manhã, de casa. Agora já estou no jornal e não resisto a somar mais um. Morreu ontem Paul Scofield, grande ator de teatro e cinema, vencedor do Oscar de 1966 por ‘O Homem Que não Vendeu Sua Alma’, de Fred Zinnemann, com roteiro de Robert Bolt (baseado em sua peça) sobre o conflito entre o filósofo Sir Tomas More (o homem para todas as estações, for all seasons, do título original) e o rei Henrique VIII. Vocês que me acompanham sabem que não sou muito ligado no cinema acadêmico de Zinnemann, mas ele certamente foi importante nos anos 50 e 60, com seu filmes que discutiam idéias. Há uma questão da consciência em Zinnemann, e em ‘O Homem Que não Vendeu Sua Alma’ ela é encarnada por More, o autor da ‘Utopia’, que resiste às pressões do rei (e morre por isso…) quando Henrique VIII espera contar com seu respaldo intelectual para legitimar a troca de esposas (e a ruptura com a Igreja de Roma). Paul Scofield é impressionante no papel, com sua dicção poderosa que faz com que tantos anos depois certas palavras que ele diz no filme ainda ressoem em meus ouvidos. Paul Scofield fez poucos filmes, mesmo depois de ganhar o Oscar. Ele é de novo impressionante como o Rei Lear de Peter Brook, mas eu prefiro outra versão da peça de Shakespeare, também do começo dos anos 70, a de Grigori Kozintsev, com Youri Yarvet, o ator de Andrei Tarkovski em ‘Solaris’ (que muita gente definia, na época, como o ‘2001’ russo. A propósito, e só para provocar, até o Stalislav Lem conseguia escrever melhor do que o Arthur C. Clarke, mas, claro, nenhum dos dois chegava aos pés de Ray Bradbury nas ‘Crônicas Marcianas’). Depois de tudo isso, chego aonde quero, ao falar sobre Paul Scofield. Em 1964, portanto antes do Oscar, ele fez ‘O Trem’, que é um daqueles filmes que eu adoraria (re)ver. Paul faz um oficial nazista e o filme com Burt Lancaster foi iniciado por Arthur Penn, mas eles se desentenderam e, como Burt era também produtor, Penn preferiu abandonar o set – ou foi mandado embora -, sendo substituído por um homem de confiança do ator, John Frankenheimer. Há 40 e tantos anos, não gostei muito de ‘O Trem’ e até o achei meio parecido com ‘O Expresso de Von Ryan’, de Mark Robson – nazistas, fuga num trem etc -, que lhe era contemporâneo. Ocorre que tem gente que ama ‘O Trem’ e depois disso eu andei lendo alguns livros sobre o saque dos nazistas aos museus e coleções particulares dos países que ocupavam. ‘O Trem’ trata justamente dos esforços da Resistência para impedir que os nazistas retirem da França as obras de arte que roubaram do Louvre e de outros grandes museus. Acho que Penn queria discutir mais o conceito da coisa, Frankenheimer investiu na ação, mas em 1964 ele também era um grande diretor, de filmes como ‘O Anjo Violento’, ‘Sob o Domínio do Mal’ e ‘O Segundo Rosto’, embora eu, pessoalmente, prefira ‘O Homem, de Kiev’ maravilhoso, com Alan Bates e Dirk Bogarde, baseado no romance de Malamud , ‘Os Pára-Quedistas Estão Chegando’, ‘O Pecado de Um Xerife’ e ‘Os Cavaleiros do Buzkhashi’ – com Omar Sharif e Jack Palance -, que sempre achei uma loucura. Paul Scofield, grande morto, foi só um pretexto para mais esta viagem.