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Luiz Carlos Merten

25 Julho 2007 | 08h30

Entrevistei ontem, no final da tarde, Paul Leduc. Ele está em São Paulo para a homenagem que lhe presta o 2º Festival de Latino-Americano. Você pode assistir aos clássicos de Leduc – Reed, México Insurgente, sobre o jornalista americano John Reed, que virou revolucionário no México (e cuja participação na Revolução Russa inspirou Reds, de Warren Beatty) e Frida, Naturaleza Viva, sobre Frida Khalo. Sempre tive curiosidade de saber de onde havia vindo este nome tão europeu. Como sabia que Leduc havia estuidado no IDHEC, em Paris, cheguei a pensar que era francês. Ele explicou que seu tata-tataravó era francês e foi para o México como enfermeiro, integrando as forças do imperador Maximiliano. Ficou por lá, constituiu família. O sobrenome veio dele, mas o nome, Paul, foi escolhido por ser bilíngüe, o mesmo em inglês e francês (sua mãe era de ascendência inglesa). Toda essa mistura produziu um autor muito interessante, preocupado em discutir a identidade mexicana. Leduc avalia que não teve outra escolha. Nao o diz com mágoa, pelo contrário. Mas ele era jovem nos anos 60. A revolução de Fidel havia sido impactante para os jovens de esquerda do continente – bem antes dessa deserção de atletas cubanos no Pan –, a nouvelle vague insuflara os novos cinemas e o Cinema Novo era um farol para todos. Estética e política andavam juntas (sempre andaram, mas naquele tempo era uma estética revolucionária). À noite, ontem, Leduc ia apresentar Reed no Memorial. Perguntei-lhe o que ia dizer? Ele não sabia. Apenas contar essas coisas sobre as quais conversamos. Faz tempo que não vê o filme. Não gosta de rever seus trabalhos. Quando o faz, só vê os defeitos. gostaria de mudá-los. Há 30 e tantos anos, influenciado pelo Cinema Novo e pela resistência a Hollywood – que já era uma força de ocupação nas telas de todo o mundo –, ele fez seu filme num tempo que lhe parecia o nosso, latino. Hoje, Reed lhe parece lento. É um belo filme. Outra curiosidade que sempre tive – Warren Beatty viu México Insurgente, antes de fazer Reds? Sim – o distribuidor americano do filme disse a Leduc que Beatty lhe havia pedido uma cópia. Sempre achei que Reds começa onde Reed termina. Não podia ser mera coincidência. Leduc demorou anos para ver Reds. Quando viu, gostou. Achou muito bem feito e, para um filme de Hollywood, muito digno no tratamento dos tema revolucionário. Não sei quanto a vocês, mas eu gosto muito de Warren Beatty. Sem veadagem, as fotos do jovem Beatty que vi em Cannes, no material iconográfico com que o festival comemorava seus 60, em maio – Natalie Wood e ele, no ano glorioso de 1962, quando fizeram Clamor do Sexo, o meu Kazan do coração –, mostraram que Delon e ele estavam ali, empatados, na disputa para ver quem era o homem mais bonito do cinema. E Beatty foi aquele garanhão que todo mundo sabe. Comeu algumas das estrelas mais desejadas do planeta, antes de sossegar com Annette Bening. Estou falando até aqui do ator, e do homem. Gosto muito do diretor. Reds é um belo filme – corajoso, se pensarmos que foi feito sob Reagan, na Casa Branca. Mas, antes de Reds, já gostava de O Céu Pode Esperar, uma fantasia encantadora que ele co-realizou com Buck Henry. E com Julie Christie, uma das deusas que, nos anos 60 e 70, passaram por sua cama. Comecei este post com Paul Leduc e estou terminando com Warren Beatty. unidos por John Reed – Juanito, como ele é chamado em México Insurgente. Um americano e um mexicano. Produtos de culturas tão diversas. O mesmo amor pela revolução.