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Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2010 | 09h57

Lembro-me que o Canal Brasil, anos atrás, promoveu uma enquete para escolher o maior cômico do cinema brasileiro. Oscarito liderava a disputa, mas aí houve uma reação dos paulistas e Mazzaropi terminou ficando com o título. O que vou dizer agora é o tipo da conversa que só consigo ter com meu amigo Rodrigo Fonseca. Viajamos os dois, lado a lado, para Campinas e, dali, para Paulínia, para assistir a ‘Tropa de Elite 2’. Trocamos figurinhas sobre o Festival do Rio e o assunto caiu em ‘Rico Ri à Toa’, o primeiro Roberto Farias, restaurado pelo CPCB, Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, a que havíamos assistido no Odeon BR. Confesso que me diverti bastante com o Zé Trindade e a Violeta Ferraz. Ficamos comparando cômicos. Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Diaz, o Oscarito, era um ator extraordinário, melhor do que Zé Trindade, com certeza, mas eu, pelo menos, e o Rodrigo, também, não o acho – não o achamos – tão divertido. Há uma afetação no virtuosismo de Oscarito, nas suas caras e bocas, nos seus trejeitos feminos, que me incomoda. Aprecio a técnica, mas, na maioria das vezes, o riso não vem. Já com Zé Trindade, a adesão é imediata e com Violeta Ferraz, nem se fala. Havia familiares de Zé Trindade e Sílvia Chiozzo para saborear com Roberto Farias aquele momento particular, o retorno, 50 e tantos anos depois, de um filme que estava ameaçado de se perder. Mas não havia ninguém da família de Violeta Ferraz. A família não foi contactada. Os organizadores da sessão – e da homenagem – tentaram e não conseguiram. Que pena! Violeta era tão engraçada, sempre irascível e de maus bofes. E que tal se o CPCB restaurasse agora ‘Selva Trágica’? Cobro sempre de Roberto Farias a reestreia ou lançamento em DVD desse clássico que é o meu ‘Rocco’ no cinema brasileiro, ocupando um panteão muito especial. ‘Selva Trágica’, por favor. Toda essa conversa, que envolve restauro de filmes, leva ao dia 27, na programação da Mostra. O Dia do Patrimônio Audiovisual deste ano tem como tema, dado pela Unesco, ‘Salve e Saboreie Sua Herança Audiovisual’. Serão apresentados, entre outros títulos, em cópias restauradas, ‘O Corintiano’, de Milton Amaral, com Mazzaropi – por que? alguém perguntou na coletiva da Mostra, ‘Porque Leon (Cakoff) é corintiano’, respondeu sua mulher, Renata Almeida -; ‘Tocaia no Asfalto’, de Roberto Pires, com Agildo Ribeiro num papel ‘sério’, de matador e o filme, q1ue mistura corrupção política e pistoleiros de aluguel,  integra o ciclo baiano, do qual saiu o próprio Glauber Rocha; e o mais atraente de todos, ‘Ainda Agarro Esta Vizinha’, de Pedro (Carlos) Rovai, com Adriana Prieto, marco da pornochanchada. Pergunto-me se a ‘Vizinha’ é mesmo tão sexy e divertido quanto parece no meu imaginário. Na época, trabalhava na ‘Folha da Manhã’, em Porto, e escrevi ‘trocentas’ matérias que buscavam analisar o mercado e o impacto de filmes como esse. Lembro-me de imagens da bela Adriana, de Wilza Carla, de Carlos Leite. A evolução da comédia de costumes para a pornochanchada e a vulgarização cada vez maior dessa tendência nas produções da Boca do Lixo, que desembocaram no sexo explícito, representa um momento importante na (r)evolução do cinema brasileiro. Vou estar de olho na ‘Vizinha’. É um dos filmes que pretendo (re)ver na Mostra.