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Luiz Carlos Merten

10 Agosto 2010 | 10h59

GRAMADO – Ontem, passei o dia tentando copiar um post sobre Patricia Neal que redigira de manhã cedo., Não consegui. Tentei de novo, agora, ao chegar à sala de imprensa. Mais uma vez, não deu. Havia me enviado o texto como e-mail, à espera de poder colar. Não consegui. Os mistérios da tecnologia!. Deixem-me tentar reconstituí-lo. Meu domingo havia sido estranho. Ao me dar conta de que era dia 8, me caiu a ficha. Meu amigo Tuio Becker estaria de aniversário. Tuio era um pouco mais velho que eu. Se vou fazer 65 em setembro, ele deveria ter feito anteontem 68 ou 69. É bizarro, quando estou aqui em Gramado, no saguão do Palácio dos Festivais. Sinto-me um sobrevivente. Tantos amigos que morreram e foram homenageados com placas colocadas naquelas paredes – Tuio, Romeu Grimaldi, Luiz César Cozzatti, P.F. Gastal. E existem os ausentes, claro. Jefferson Barros, Jefferson Barros, Jefferson Barros. Foi um dos maiores pensadores sobre cinema do Rio Grande, mas, oficialmente, nunca fez parte da história de Gramado. Sem ressentimento algum, eu provavelmente não faria, ou farei. Durantes anos a fio, nunca fui convidado para Gramado – não me queixo, notem bem, apenas anoto. Já escrevia há quanto tempo sobre cinema? Passei a existir quando virei o homem do ‘Estadão’. O domingo, com a lembrança do Tuio e de outros mortos queridos – Sérgio Moita -, me deixou meio bodeado. Ontem pela manhã, ao descer para o café, encontrei Carlos Eduardo Lourenço Jorge, de Londrina, que me deu a notícia. Havia morrido Patricia Neal. Como estávamos sem sistema, redigi o texto sobre ela no Word, para copiar depois, mas não houve jeito. Lembrei-me de uma publicação francesa, que disse certa vez que Patricia Neal tinha a ‘mauvaise étoile’, a má estrela, tentando explicar porque ela não foi a grande estrela que poderia ter sido. Patricia não era singularmejnte bela, mas era sexy e talentosa. Irrompeu em Hollywood feito um furacão. De cara, vinda do teatro, 21 anos, co-estrelou ‘The Fountainhead’, de King Vidor, com Gary Cooper, então com 48. O filme teve, no Brasil, o mesmo título atribuído depois a ‘True Grit’, de Henry Hathaway – ‘Bravura Indômita’. Ela teve um tórrido affair com o colega, ficou grávida. A mulher dele a dispensou, por telefonema ou telegrama, não lembro mais, dizendo que o caso estava terminado. E Cooper, o grande mocinho – da ficção -, sugeriu a Pat que abortasse. Anos mais tarde, uma sucessão de infortúnios se abateu sobre a atriz. Um acidente de carro vitimou seu filho de 4 meses, a filha de 7 anos morreu de sarampo. Nos anos 1960, Pastricia filmava ‘Sete Mulheres’, de John Ford, quando teve o primeiro de três derrames sucessivos que a deixaram em coma. Perdeu a fala, os movimentos e foi substituída por Anne Bancroft no filme de Ford. Foi um longo, lento, difícil processo de recuperação, mas ela conseguiu, com o apoio do marido, o escritor Roald Dahl. Patricia Neal ganhou o Oscar de 1964 por seu papel como a mulher madura e um tanto sem graça que Paul Newman seduz em ‘Hud, o Indomado’, de Martin Ritt. Ela fazia a coroa que pagava pelos carinhos de George Peppard em ‘Bonequinha de Luxo’, de Blake Edwards, mas nunca ficava claro que ele era gigolô (nem que Audrey Hepburn era p…). Eu amava Patricia Neal. Ela é deslumbrante em ‘The Fountainhead’, humaniza ‘O Dia em Que a Terra Parou’, de Robert Wise. Mas a minha Patricia Neal era aquela que, quando John Wayne acordava da cirurgia de amputação da perna, no clássico ‘A Primeira Vitória’, de Otto Preminger, estava lá, solidária, firme com ele. Não sei se pelo papel, sempre tive essa sensação de que ela era uma fortaleza. Nunca duvidei de que se recuperasse, mesmo que não fosse 100%.  Patricia Neal morreu no domingo. Tinha 84 anos. Confesso que me deu uma tristeza que chorei. Por ela? Pelos amigos que se foram? Por mim? O importante é que a emoção foi sincera.