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Pátria amada!

Luiz Carlos Merten

11 Janeiro 2016 | 12h18

Tenho gostado muito de algumas matérias de resgate que tenho feito no Caderno 2. Não falo do resultado., quem tem de dizer é o leitor, mas gostei de me debruçar, de novo, sobre Oito e Meio, o clássico de Federico Fellini, de volta às salas em cópia nova, e sobre dois lançamentos em DVD do Instituto Moreira Salles – A Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán, e A Viagem dos Comediantes, de Theo Angelopoulos. Cahiers desdenhava o cinema, que chamava de ‘pompier’, de Angelopoulos. Tive o privilégio de entrevistá-lo algumas vezes, umas quatro, em Cannes e Berlim. Da última vez que o vi, e cumprimentei, ele estava com a mulher anônimo na Croisette. Ambos, num ângulo em frente ao Palais, olhavam à distância a montée des marches. Arrependi-me de não haver parado e conversado um pouco. E mais ainda quando, pouco depois, Angelopoulos morreu naquele acidente estúpido, atropelado por uma ‘bike’ no Pireu. Um pouco à maneira de Andrei Tarkovski, mas diferente dele, ‘Theodoros’ (Theo) fazia cinema para esculpir o tempo. Construiu belíssimos planos sequências. Privilegiava os temas clássicos da cultura grega – a viagem, a Odisseia, e a persona mítica de Helena. A Viagem dos Comediantes acompanha um grupo de teatro que se apresenta de aldeias em aldeias, na Grécia, entre 1939 e 52. Mas ordem é inversa. O filme começa em 1952, termina em 1939. É narrado em flash-backs que são rupturas no tempo, de forma a que Angelopoulos viaje na história e na mitologias gregas. Os personagens chamam-se Agamenon, Clitemnestra, Orestes, Electra. Coimo Helena, em seus últimos filmes, Orestes haveria de voltar em Paisagem na Neblinas, como o motociclista que levava os irmãos, Voula e Alexandre, em sua viagem iniciática em busca do pai. No caminho, encontram, o grupo de teatro que não consegue se apresentar. A Viagem dos Comediantes 2. São filmes lindos. Adoro como Patricio Guzmán faz conexões improváveis. Fala das estrelas em Nostalgia da Luz e do mar em O Botão de Pérola e, em ambos os casos, o universo e o oceano são passaportes para que ele chegue ao seu tema dominante – o golpe de Pinochet, a violência da ditadura chilena. Fundem-se o macro e o micro. E Fellini! Il maestro fez Oito e Meio em plena fase junguiana, sob a influência do criador da psicologia analítica. Memórias, sonhos e reflexões. Posso estar fazendo minha psicanálise elementar, fornecendo chaves, não sei, mas nenhuma personagem de Fellini mexe tanto comigo quanto Saraghina. ‘La rumba, Saraghina, la rumba!’ Nesses momentos, escrevendo sobre os filmes que amo, sinto como se o cinema fosse minha pátria.